Os arquivos Epstein, divulgados pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos, são uma caixinha de surpresas. Os nossos repórteres tanto vasculharam por entre quase quatro milhões de ficheiros – até que encontraram uma divertida troca de e-mails entre o multimilionário pedófilo, amigo de uns tantos dos mais poderosos do mundo, e o embaixador Carlos Pires, hoje à frente da missão portuguesa em Singapura.
Carlos Pires, de 52 anos, tem uma sólida carreira na Administração Pública. Trabalhou na Direção dos Serviços para os Assuntos de Segurança e Defesa, passou pelo gabinete de Luís Amado, ministro dos Negócios Estrangeiros no tempo de Sócrates, assessorou o primeiro-ministro Passos Coelho, esteve na embaixada em Paris, dirigiu o sensível Serviço de Informações Estratégicas de Defesa, foi mesmo secretário de Estado da Defesa de António Costa. Enquanto diplomata, passou pelas embaixadas portuguesas em São Tomé, Cairo e Paris, e no seio do Ministério dos Negócios Estrangeiros é tido como alguém “muito discreto, que não gosta de dar nas vistas, o típico diplomata que os ministros gostam de ter ao seu lado”.
Na madrugada de 11 de novembro de 2010, estava ele como adjunto no gabinete do ministro Luís Amado – também referido nos ficheiros –, recebeu um e-mail do próprio Jeffrey Epstein. O americano, homem de poucas palavras, foi seco na mensagem: “Vou hospedá-lo em Nova Iorque. Venha em breve”.

Não se sabe se Carlos Pires chegou a aceitar o convite. O 24Horas, apesar de todos os esforços, não conseguiu contactar o nosso embaixador em Singapura. O então adjunto de Luís Amado derreteu-se com as atenções de Epstein. Respondeu-lhe horas depois, manhã cedo: “Obrigado, Jeffrey. Foi um prazer conhecê-lo e aguardo também a sua visita a Portugal muito em breve. Mantemos o contacto”.

Parece claro que Carlos Pires e Epstein já se conheciam. O nome de Luís Amado, de resto, é referido num ficheiro do americano. A referência, diga-se, é de raspão. Alguém – cujo nome está rasurado – enviou a Jeffrey Epstein uma pequena lista de gente mais ou menos ilustre, que o multimilionário pedófilo devia conhecer. No rol, lá está Luís Amado. O ex-ministro aparece muito bem acompanhado – entre uma série de governantes do mundo que participaram numa reunião alargada.
Contactado pelo 24Horas, Luís Amado esclarece as circunstâncias que atiraram o seu nome para os arquivos de Epstein. “Trata-se da lista de uma reunião em que participei, em 2010, num país do Golfo. Epstein, um financeiro, terá sido aconselhado a fazer contactos à margem da reunião, prática habitual neste tipo de encontros” – disse aos nossos repórteres. Garante que nunca conheceu tal figura: “Nunca o vi”.
Segundo Amado, o seu antigo adjunto contactou o seu ex-ministro mal soube que os ficheiros faziam referência ao seu nome. Segundo Luís Amado, o diplomata disse-lhe que “não se lembrava se alguma vez trocou cartões com Epstein”. Mas Carlos Pires não se ficou pela “troca de cartões” com Epstein. Os e-mails trocados entre ambos vão além dessa formalidade…