Joana Marques, de 40 anos, vive dias difíceis. A humorista da Rádio Renascença recorreu às redes sociais para prestar uma última homenagem à avó Estela, que morreu aos 103 anos.
“A minha avó era imortal, até prova em contrário. Infelizmente a prova chegou. Mas felizmente tardou. Nenhum texto lhe fará justiça, mas como fã n.º1 de qualquer coisa que eu escrevesse (com aquela parcialidade que vem com o amor incondicional dos avós), acho que merece uma última (que nunca será) homenagem. Mesmo sabendo que não tinha Instagram, e que agora em princípio continuará a não ter, mas lembrando os tempos em que a minha mãe lhe imprimia o meu blogue para que pudesse ler, aqui fica, na esperança de que, no tal sítio melhor para onde se vai, haja impressora”, começou por partilhar a humorista.
Joana Marques recordou os diversos nomes pelos quais a avó era conhecida ao longo da vida e partilhou memórias da infância: “Para mim era ‘Avó Estela’, mas teve vários nomes ao longo da vida. Contava-me que na escola era ‘Maria Rita’, porque estava sempre a rir, nomeadamente quando fazia imitações dos professores da ‘instrução primária’, que a repreendiam e a expulsavam da ‘classe’. Diz que queria ser atriz mas que não era uma profissão muito bem vista para meninas nascidas em 1923. Acredito que passou ao lado de uma grande carreira, mas tive a honra de fazer de sua encenadora em muitos teatros caseiros. Brincámos aos barcos, aos ginásios, às passagens de modelos, não recusava nenhum papel. Na faculdade foi colega de jovens como Maria Barroso ou Sebastião da Gama (sim, o poeta de ‘pelo sonho é que vamos, comovidos e mudos’). Leitora ávida, até ao último dia, e maior consumidora de palavras cruzadas da península ibérica, ensinou-me o que queria dizer ‘trocista’, e percebi que era ‘adjetivo, sinónimo de nós as duas’.”
A radialista acrescentou fotografias que registam momentos vividos com a avó, reforçando o vínculo especial entre as duas. “A minha melhor amiga da primária chamava-lhe ‘Avó Estrela’. O que podia parecer, à primeira vista, um erro de grafia, não podia estar mais certo. Era uma estrela. E não, não é ‘uma estrelinha que agora brilha no céu’, como se tenta impingir às crianças para as consolar na hora da partida, ela foi uma estrela aqui, todos os dias. Mas uma estrela rock. Acordava ao meio-dia, só comia o que lhe apetecia e, como qualquer rockstar, era transgressora.”
Joana Marques recordou ainda aventuras e brincadeiras partilhadas com a avó, desde férias e aniversários até momentos do dia a dia: “A minha cúmplice no crime, fosse nas férias no Hotel do Vimeiro, em que o limite legal de gelados por dia era largamente ultrapassado ou anos mais tarde, quando me levava a festas às quais estava proibida de ir. Anfitriã de todos os meus aniversários na infância, em que ficávamos histéricos em volta de uma pinhata, e de todas as festas da adolescência, em que o histerismo se deva em volta de uma garrafa de Pisang Ambon subtraída do armário. Partilhávamos o aniversário. Uma, sempre à frente, nascida a 2 de janeiro, a outra, sempre a seguir-lhe os passos, a 3.”
A humorista também recordou episódios do passado, como a subida da rampa da estação de Algés em 2004, quando a avó tinha 81 anos e Joana 18: “Certo dia fi-la subir a correr a rampa da estação de Algés, para não perdermos o comboio, e a minha mãe repreendeu-me: ‘Joana, a avó já tem 80 anos’. Teria? Acho que nunca chegou a ter.”
A avó viveu o suficiente para conhecer dois bisnetos e ganhar o apelido carinhoso de ‘Avó Catela’. Joana Marques descreveu a relação com os netos mais novos e os pequenos rituais familiares: “Bisavó era um título demasiado pesado para alguém tão leve. Ainda repetiu as nossas brincadeiras com o Xavier, e passou horas a perguntar ‘onde está o Nico? Não está cá?’, com ele camuflado atrás dos cortinados da porta. Só as avós têm reposteiros na porta de casa, não é? Mas faz sentido, porque é como se estivéssemos a entrar em cena, num teatro em que tudo é possível. Por isso é que custa a crer que a peça tenha acabado.”
Joana Marques falou também de momentos triviais mas significativos do dia a dia com a avó: “Tudo me lembra a minha avó: desde o Careca onde íamos lanchar e eu, perante mil possibilidades, escolhia uma desenxabida pirâmide, até às chamadas de telemarketing a impingir produtos, das quais a minha avó se safava alegando ‘essa senhora já não mora cá, já morreu’. E ríamos muito. Como voltei a rir agora.”
Por fim, a radialista prometeu manter viva a memória da avó, guardando todas as lembranças e aprendizados: “Durante anos, no Natal, oferecia-lhe um calendário, que ela pendurava religiosamente na cozinha. Era uma espécie de compromisso, para garantir que completava os doze meses seguintes. Nos últimos tempos, não sei porquê, deixei de dar. Agora posso ver isto como a quebra de uma superstição, que deu azar, ou como a assunção de que realmente não podemos obrigar ninguém a viver para sempre. Não tive só uma vida com a minha avó. Tive direito a várias. E que boas vidas foram”.
“A última imagem que tenho dela é à janela, onde ficava a acenar até dobrarmos a esquina. Assim estou eu, hoje, à janela. Só que ela felizmente não desaparece do meu horizonte, nunca. ‘Pelo sonho é que vamos’. Comovidos, mas nunca mudos. Porque a minha avó, a maior gralha de que há memória, detestava o silêncio. Nunca me vou esquecer dela porque é impossível esquecermos alguém que também somos. Nem é preciso ir vasculhar álbuns antigos, basta olhar ao espelho”, rematou.