Um artigo publicado na edição de hoje do conceituado diário francês ‘Le Figaro’, assinado por Arnaud La Grange, o correspondente em Londres daquele matutino parisiense, analisa a importância estratégica do estreito de Ormuz. Sob o título ‘Do império português à ofensiva de Trump’, o autor explora a importância estratégica crescente daquele estreito, contextualizando-a historicamente — desde a época do império português até às atuais tensões geopolíticas envolvendo os Estados Unidos, o Irão e a política externa de Donald Trump.
Apesar dessa importância estratégica ser conhecida muito antes da sua chegada ao oceano Índico, no início do século XVI, os portugueses perceberam logo o essencial, ou seja, quem controlasse os estrangulamentos marítimos controlaria o comércio entre a Ásia e a Europa.
Foi dentro dessa lógica que Afonso de Albuquerque conquistou Ormuz em 1507, e criou então um sistema baseado no controlo do triângulo formado pelas três grandes ‘portas’ do comércio oriental – o estreito de Ormuz (acesso ao golfo Pérsico), Bab el-Mandeb (acesso ao Mar Vermelho), e o estreito de Malaca, essencial para a ligação ao Sudeste Asiático. Com o controlo destas ‘portas’ os portugueses passaram a vigiar navios, a cobrar taxas, e a controlar rotas comerciais, iniciando assim uma lógica geopolítica que dura até hoje, cinco séculos volvidos.
O estreito de Ormuz, situado entre o Irão e a península de Omã, constitui uma das passagens marítimas mais sensíveis do planeta. Trata-se da única ligação entre o Golfo Pérsico e o oceano Índico e por ele transita cerca de um quinto do petróleo e do gás natural liquefeito comercializado no mundo. Qualquer perturbação nesta rota tem impacto imediato nos mercados energéticos e na economia global.
No século XX, o valor estratégico de Ormuz aumentou de forma decisiva com a centralidade do petróleo na economia mundial. Durante a chamada “guerra dos petroleiros” na década de 1980, no contexto da guerra Irão-Iraque, navios comerciais e petrolíferos foram repetidamente atacados, levando os Estados Unidos a intervir para garantir a segurança da navegação. Desde então, a região permanece altamente militarizada e sujeita a crises recorrentes.
Uma importância estratégica a todos os níveis
Hoje, a importância do estreito é reforçada pela dependência energética global e pela rivalidade entre o Irão e os Estados Unidos. As tensões recentes, agravadas pela guerra envolvendo Teerão e ataques na região, voltaram a colocar Ormuz no centro da agenda estratégica internacional. A administração de Donald Trump tem adotado uma postura particularmente agressiva, advertindo o Irão de que qualquer tentativa de bloquear o trânsito marítimo poderá desencadear uma resposta militar direta.
A geografia do estreito amplifica os riscos. No seu ponto mais estreito, a passagem tem pouco mais de 30 quilómetros e as rotas de navegação concentram-se em corredores muito estreitos, o que facilita a vigilância e eventuais ataques. Essa vulnerabilidade torna Ormuz um “estrangulamento” estratégico da economia mundial: um conflito local pode rapidamente transformar-se numa crise energética global.
O artigo conclui que Ormuz continua a ser um ponto fulcral do equilíbrio geopolítico mundial. Entre rivalidades históricas, disputas energéticas e tensões militares contemporâneas, o estreito permanece um dos lugares onde se joga, em larga medida, a estabilidade do sistema internacional.