Ambientado no final da década de 1970, em pleno período da ditadura militar brasileira, o filme ‘O Agente Secreto’, em exibição nos cinemas portugueses, constrói o seu universo a partir de um país onde a vigilância não precisa de se anunciar para ser sentida. O filme acompanha um homem que tenta reconstruir a vida num ambiente marcado pelo medo difuso, pela repressão silenciosa e pela constante sensação de que algo está sempre prestes a acontecer. Mais do que reconstituir um momento histórico, a narrativa procura captar o clima psicológico de uma época em que o controlo se infiltrava no quotidiano.
No centro da história está Wagner Moura, numa das interpretações mais contidas da sua carreira. Longe do registo expansivo que o tornou conhecido internacionalmente, o ator aposta numa presença marcada pela economia de gestos, pelo olhar e pela tensão interna. O reconhecimento veio justamente por essa escolha: Moura foi indicado ao Óscar e venceu o Globo de Ouro, enquanto ‘O Agente Secreto’ arrecadou também um Globo de Ouro, consolidando o seu lugar no circuito internacional.
Apesar desse percurso de consagração, o filme está longe de ser consensual. Muitos espectadores poderão considerá-lo aborrecido. A narrativa avança lentamente, evita clímax evidentes e recusa conduzir o público pela mão. É uma proposta que não procura agradar de imediato, mas construir uma experiência gradual, sustentada mais pela atmosfera do que pela ação.
Essa receção desigual fora do Brasil está intimamente ligada à forma como o filme trabalha a memória da ditadura. Para o cinema brasileiro, esse passado continua a ser um elemento estruturante, ainda vivo no imaginário coletivo. O filme parte do princípio de que essa herança é sentida quase instintivamente. Quando essa experiência histórica não é partilhada de forma direta, a narrativa pode parecer distante ou excessivamente fechada, quando na verdade está profundamente enraizada no seu contexto.
Do ponto de vista cinematográfico, porém, o rigor é inegável. A fotografia explora a luz e a sombra como extensões do estado emocional das personagens, a câmara observa mais do que explica, e a realização revela um controlo preciso do tom. Tudo contribui para uma sensação de desconforto silencioso, coerente com o universo que o filme propõe.
Não por acaso, ‘O Agente Secreto’ foi indicado em quatro categorias dos Óscares, integrando um momento particularmente forte do cinema brasileiro, que vem de dois anos consecutivos de reconhecimento internacional, com distinções nos Globos de Ouro e nos Óscares. Trata-se de um cinema que tem apostado menos na sedução imediata e mais na construção de identidade e linguagem própria.