Marcelo Rebelo de Sousa anda encantado com Ana Abrunhosa. O Presidente da República não lhe poupa elogios e encómios, gaba-lhe a competência, desfaz-se em aplausos pelo papel que a autarca terá desempenhado durante estes dias de tempestade que assinaram o país, e particularmente a região Centro, neste caso concreto, Coimbra. Mas nem sempre foi assim…
Esta súbita ‘paixoneta’ de Marcelo por Ana Abrunhosa é coisa recente. Apesar dos sorrisos rasgados, dos beijinhos afetuosos, dos abraços apertados, há quem ainda recorde outros tempos, quando, sendo Abrunhosa ministra de António Costa, Marcelo não hesitou em puxar-lhe as orelhas publicamente…
Estávamos em 2022, mais exatamente em Novembro. No dia 7, mais precisamente – dia em que na Trofa se inauguravam os paços do Concelho. Convidado de honra da cerimónia, Marcelo Rebelo de Sousa resolveu dedicar grande parte da sua alocução a Ana Abrunhosa, então ministra da Coesão Territorial, e que representava o governo naquele momento, e que tinha a seu cargo a execução do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR).
Garantindo estar “muito atento” à execução dos fundos europeus e não vir a perdoar uma eventual falha, desde o púlpito Marcelo lançou um aviso público à governante: “Este é um dia super feliz, mas há dias super infelizes. E verdadeiramente super infeliz para si será o dia em que eu descubra que a taxa de execução dos fundos europeus não é aquela que eu acho que deve ser”. E para que não restassem dúvidas quanto à seriedade do aviso que resolvera fazer, Marcelo rematou: “Nesse caso não lhe perdoo. Espero que esse dia não chegue, mas estarei atento para o caso de chegar”, acentuou.
Não contente com esse ‘puxão de orelhas’ dado à ministra, Marcelo continuou num tom que se pretendia pedagógico, mas que foi interpretado como mais um inopinado ‘ralhete’, ainda para mais quando dado na presença de Luís Montenegro, então líder da oposição, e que se encontrava na cerimónia dado ser o PSD a liderar aquele município: “Quando aceitamos funções políticas, sabemos que é para o bem e para o mal. Não somos obrigados a aceitar. Sabemos que são difíceis, são árduas, que estão sujeitas a um controlo e a um escrutínio crescente – a democracia é isso – e há dias bons e dias maus, dias felizes e dias infelizes. A proporção é dois dias felizes por dez dias infelizes”, afirmou o Presidente da República.

Esta chamada de atenção à então ministra, e por ‘tabela’ ao governo, foi na altura interpretado como um sinal para o governo. Apesar de António Costa ter obtido a maioria absoluta apenas meio ano antes, em Março, já se sentia algum desgaste na ação governativa, existindo críticas crescentes à execução dos fundos do PRR.
A própria relação entre Belém e São Bento já não era o que tinha sido, e Marcelo, até aí acusado de possuir um ‘pacto secreto’ com Costa, começava a mostrar que estaria disposto a mudar o seu posicionamento aparentemente cúmplice com o executivo. Havia vários casos mediáticos envolvendo membros do Executivo, e o Presidente resolveu começar adotar publicamente um tom de exigência em relação à ação governativa.
Na altura, visivelmente muito incomodada com o tom e a forma como Marcelo a tinha interpelado publicamente, Abrunhosa furtou-se a fazer qualquer comentário ao discurso presidencial, e apenas dias mais tarde, quando questionada, surgiu a tentar desvalorizar o ‘puxão de orelhas’ recebido na Trofa, tentando justificá-lo: “Foi num ambiente muito informal, a (…) preocupação do Presidente da República é perfeitamente legítima”, afirmou.
Na altura, este episódio causou profundo mal-estar entre Marcelo e Costa, e marcou para muitos o afastamento entre ambos, que viria a culminar com a demissão do primeiro-ministro socialista, ocorrido exatamente daí a um ano. Isto apesar Costa, na altura a participar numa conferencia no Egipto, ter optado por publicamente tentar desvalorizar o incidente: “O senhor Presidente da República por vezes tem momentos de criatividade”, disse, acompanhado de um largo sorriso.
Refira-se igualmente que na altura, o ‘puxão de orelhas’ público de Marcelo à então ministra da Coesão Territorial, motivou mesmo uma tomada de posição por parte da Comissão Europeia. Uma fonte de Bruxelas afirmou à CNN Portugal, que “a implementação do plano de Portugal está no bom caminho”.