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  • “O Mundo não espera por nós”, António José Seguro
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Miguel Tiago

Do final da década de 70, início da década de 80, até hoje, o sentido da política nacional, pelas mãos...

Do final da década de 70, início da década de 80, até hoje, o sentido da política nacional, pelas mãos de todos os governos que passaram pelo poder, foi sempre da esquerda para a direita.

Desde o início dos anos 80 até hoje, o sentido na política económica foi o das privatizações e do desmantelamento do aparelho produtivo, da soberania alimentar e da capacidade industrial.

Podemos dizer o mesmo sobre o sentido das políticas laborais. Desde essa altura, que a política para os trabalhadores se resume à redução paulatina de direitos. Primeiro, tiram direitos sindicais, depois facilitam despedimentos e criam falsos recibos verdes, depois alargam horários, depois diminuem o valor das horas extra, depois baixam o valor das indemnizações por despedimento, depois criam o banco de horas grupal com negociação coletiva e agora já querem que sejas tu a negociar sozinho o teu horário semanal com o teu patrão.

Na educação, primeiro aumentam a propina, depois empresarializam as universidades e politécnicos, mais tarde, tiram os estudantes dos órgãos de gestão e reduzem os direitos das associações de estudantes. Enquanto isso, nunca constroem as residências para os estudantes deslocados e promovem a total mercantilização do alojamento para estudantes. O ensino privado tornou-se, em muitos casos, mais barato perto de casa do que ir estudar para uma escola pública longe.

Na saúde, primeiro encerram os centros de saúde, diminuem os serviços e valências, depois chamam empresas dos amigos que vendem tarefeiros à hora, depois encerram serviços nos hospitais públicos e desviam metade do orçamento do estado para o negócio privado da doença. Ao longo das décadas, uma verdadeira privatização da saúde, por omissão do papel do estado previsto na constituição.

Também podemos falar dos preços e da regulação: seja nos combustíveis, seja na electricidade, seja no gás de botija. A desregulação e liberalização –anunciadas como as melhores modernices do mundo – sufocam hoje os portugueses que precisam deslocar-se para o trabalho e casa porque há uns anos também privatizaram a Rodoviária Nacional e agora não há carreiras. Também já se preparam para privatizar a TAP e há de chegar a vez da CP.

Também a política de habitação sofreu uma enorme deslocação para a direita e para a liberalização, especialmente após a lei dos despejos do governo da troika, de Passos Coelho e Portas, PSD/CDS. Hoje, o resultado da política de direita está à vista, com a especulação a determinar todo o comportamento do mercado, com os imóveis a serem adquiridos por estrangeiros com dinheiro e com os trabalhadores e jovens portugueses cada vez mais endividados ou presos nas casas dos pais.

E que dizer na espectacular entrada de Portugal na cee e depois na união europeia? Colocou-nos mesmo no pelotão da frente da periferia económica do espaço vital alemão. Por causa da UE, hoje temos um cabo USB único para todos os telemóveis, mas também por causa da UE temos energia, combustíveis, mercado de bens, capitais e de trabalho, totalmente desregulados. E também por causa da UE tivemos que pagar mais de 8 mil milhões de euros por um banco falido para depois entregar de borla aos americanos.

Dirão os fanáticos do liberalismo, essa seita que domina o parlamento, as televisões, e a comunicação social em geral, que o problema está em não liberalizar o suficiente. Que é preciso privatizar mais e mais depressa e acabar ainda mais e mais rapidamente com o direito ao trabalho, com os direitos laborais e sindicais, que é preciso é aumentar as propinas, liberalizar ainda mais os transportes e o mercado em geral. Que é uma banca soltinha da regulação e da supervisão que nos salvará, que é a privatização de São Bento e do palácio de Belém que vai colocar Portugal na rota do desenvolvimento.

A realidade, porém, não se compadece com fábulas. O País vai perdendo soberania, capacidade, perde na economia, na indústria, na ciência e tecnologia, perde no poder de compra, nos direitos à saúde, educação, habitação e nos direitos laborais.

O desenvolvimento que a seita liberal nos propõe é o da velha escola do neoliberalismo, de Chicago a Tatcher, com uns pozinhos de tempero vintage de Mussolini e uma pitada de modernismo pós-verdade de Milei.

Já lhes demos abril e maio, a 3 de junho… a realidade bate-lhes à porta outra vez.