A Europa está novamente sentada na primeira fila da História — e, como tantas vezes antes, hesita entre levantar-se e...
A Europa está novamente sentada na primeira fila da História — e, como tantas vezes antes, hesita entre levantar-se e sair da sala ou fingir que o espetáculo não a envolve. A ofensiva estratégica da administração Trump veio retirar qualquer conforto à ilusão europeia de neutralidade geopolítica: o mundo está a ser redesenhado, e a União Europeia ou participa nesse desenho ou aceitará viver dentro das linhas traçadas por outros.
A actual ofensiva política, económica e estratégica contra a Europa não é apenas mais um episódio de turbulência transatlântica. Trata-se de uma tentativa deliberada de reconfigurar o equilíbrio geoestratégico global, recolocando os Estados Unidos no centro de um sistema de dependências, pressões e lealdades forçadas.
Como reagir?
O primeiro imperativo é simples de formular e difícil de executar: maior coesão das políticas europeias. Enquanto a Europa continuar a responder de forma fragmentada, hesitante e frequentemente contraditória, continuará a ser percebida como espaço económico relevante, mas actor político menor — uma espécie de gigante comercial com alma de anão estratégico.
Essa coesão exige mais do que boas intenções e comunicados solenes. Exige mudanças institucionais progressivas, plenamente ancoradas nos tratados, mas orientadas para a construção de um verdadeiro federalismo europeu. Não se trata de abolir soberanias, mas de as somar. Num mundo de impérios económicos e potências geopolíticas, soberania solitária é sinónimo de irrelevância.
Em paralelo a Europa precisa de assumir, sem medo e sem rodeios, o confronto político com a estratégia de Trump — confronto diplomático, comercial, tecnológico e narrativo. Não por antiamericanismo primário, mas por elementar instinto de sobrevivência. Vários líderes europeus já o disseram: ou a Europa aprende a defender os seus interesses estratégicos ou passará a viver deles apenas na memória.
A assinatura do acordo comercial UE–Mercosul representa, neste contexto, mais do que um tratado económico: é a primeira brecha visível na pretensão hegemónica que Washington procura impor sobre a América Latina. A mensagem é clara — a Europa não aceita ser confinada ao papel de mercado consumidor num mundo redesenhado por outros.
Mas o anúncio recente do envio de tropas da Alemanha, da Suécia e Noruega para a Gronelândia e o reforço diplomático da França e Reino Unido com a região, é também um excelente sinal dirigido a Trump e contra a sua política unilateral.
Por outro lado, a UE deve abrir-se a novas e criativas formas de cooperação com a China, sem ingenuidade, mas também sem subserviência aos reflexos da Guerra Fria. O século XXI não será organizado por blocos ideológicos estáticos, mas por redes flexíveis de interesses, tecnologia, comércio e influência. Quem não compreender isso será ultrapassado — com ou sem nostalgia.
Por fim, há um elemento regenerador e esperançoso que a política tradicional ainda subestima: a Geração Z. Cosmopolita, digital, menos prisioneira de fronteiras mentais e mais sensível à ideia de destino comum, ela transporta em si um renovado pan-europeísmo. Se for mobilizada, pode tornar-se a força social que faltou às elites para salvar, atualizar e consolidar o projeto europeu para o futuro.
A História raramente oferece segundas oportunidades. A Europa está diante de uma delas. Com o discernimento, o sadio proselitismo e o empenho da Geração Z (que ajudará a opinião pública europeia a perceber o que está em jogo) a UE pode reerguer-se desde que as actuais lideranças tenham a coragem de abandonar a gestão do medo e assumam, finalmente, a responsabilidade do futuro.