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  • 'Têm ideia do que fizeram à minha vida?', João Cotrim de Figueiredo
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João Vasco Almeida

Há uma ministra que diz que o sistema de entrada e saída de passageiros no Aeroporto de Lisboa “pifou”. Sim,...

Há uma ministra que diz que o sistema de entrada e saída de passageiros no Aeroporto de Lisboa “pifou”. Sim, pifou. Aplaudo a palavra, vinda do francês biffer, que significa morrer ou roubar a vida, e tem essa qualidade de morte súbita que lhe vem bem. O problema – e digo-o com a serenidade de quem observa o mundo a desmoronar-se com tranquilidade – é que não aceito a desculpa que a acompanha. Porque os sistemas não pifam sozinhos. Não, senhor. Deixam-nos pifar.

É como culpar a língua portuguesa quando uma pessoa fica rouca de gripe. A língua não pifou; foi o indivíduo. Estava ali a língua, pacientemente, esperando por alguém que soubesse usá-la com um mínimo de dignidade. Os sistemas informáticos funcionam assim também. Velhos, claro, maltratados, desactualizados desde tempos em que ainda acreditávamos em revistas em papel, mas pifam? Não. Deixam-se pifar. Precisam de ajuda activa. Precisam de negligência bem feita, aquela negligência sistemática – e peço desculpa pelo pleonasmo que fez uma caminhada involuntária até aqui – para chegarem ao estado de pifaria sublime em que hoje residem confortavelmente.

A ministra, vejamos bem, é alguém que observa uma máquina caída no chão e profere a seguinte frase: “A máquina pifou.” Não. Não pifou assim. A máquina foi deixada cair. E aí está a questão que ninguém discute nos programas de televisão das vinte e duas horas, onde toda a gente finge ter opiniões muito firmes sobre assuntos que desconhece completamente.

Os sistemas são como a Biblioteca de Alexandria: não ardem sozinhos. Alguém tem de vir com o fogo, com uma intencionalidade, com uma vontade explícita de queimar. E há quanto tempo? Décadas. Há décadas que temos uma multidão considerável de piromaníacos bem remunerados a cumprir com excelência precisamente essa tarefa, enquanto os encarregados da Biblioteca fingem surpresa quando as chamas chegam às secções mais críticas, àquelas que de facto importam. Esses pirómanos levam o nome de “técnicos de informática”, ou “engenheiros”, que ainda sabe melhor.

“Pifou”, dissemos. Palavra linda, quase poética na sua brevidade assassina. Quem o fez foram os seres humanos. As pessoas que gerem o sistema, que o tocam, que o alimentam com as suas decisões. Pifaram. E continuam a pifar, de hora a hora, com uma cadência quase melancólica, como quem executa tarefas que sabe serem fúteis, mas que não conseguem deixar de fazer.

Imagine-se o Sistema como um corpo vivo: dezenas, centenas de “médicos” ao seu redor, os “informáticos”, observando cada célula, cada batida do coração, cada pensamento que atravessa a mente. Se pifa, pifa porque os seres humanos falham.  Mas quando pifa, o corpo do Estado que é sempre inocente, sempre de mãos limpas, sempre a chorar a morte da máquina, envia ministras do tempo em que existiam Tupperwares dizer coisas.

A aldrabice não está no sistema. Está no uso da palavra “sistema” como um bode expiatório cibernético conveniente. Uma moscambilha corporativa. Um truque de magia que, após séculos de prática, se tornou invisível pela simples razão de que toda a gente conhece o truque e finge não o conhecer.

Se lhe disserem que o sistema pifou, ria-se, peça o livro de reclamações, sugira o uso de calculadoras Casio, que nos levaram à Lua, e saia em gargalhada. Antes que o seu sistema pife também.