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  • “Trump nem saberá onde fica o Irão”, Miguel Sousa Tavares
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Luís Campos Ferreira

A sopa arrefecia enquanto esperava que o apetite chegasse. Lá fora, já estava um escuro cerrado, ao ponto de até...

A sopa arrefecia enquanto esperava que o apetite chegasse. Lá fora, já estava um escuro cerrado, ao ponto de até o relógio de parede parecer cansado de um dia inteiro de trabalho. Estava a jantar sozinho. Sei que muita gente não gosta, mas a mim não me incomoda. Pelo contrário, é muitas vezes nesse silêncio que penso no estado das coisas que, de todo, não dão garantias de serem favoráveis.

A minha geração cresceu com a promessa de que através dos estudos tinha um caminho seguro. Hoje percebe que cumprir com o que foi pedido já não chega, principalmente em mercados de trabalho hipercompetitivos. Apesar de termos níveis de qualificação historicamente elevados, somos a primeira geração que não sabe se viverá melhor do que os pais. Por isso, a emigração jovem tornou-se regra, não exceção, e embora em Portugal seja particularmente visível, não é de todo um fenómeno isolado. Houve um descuido sério das gerações anteriores, cujos efeitos se materializam agora, na habitação, nos salários, na precariedade prolongada. Podia dar mais alguns exemplos de como o “Contrato Social” (referência a John Rawls) foi quebrado. Não o faço sob pena de vos maçar com algo que é de conhecimento comum. Porém, ao que tudo indica, nada foi aprendido com erros do passado e, desta vez, avançamos por caminhos de sentido único, o que faz soar alarmes.

O poderio de inteligência artificial – talvez a melhor invenção da história da humanidade – encontra-se hoje concentrado nas mãos de uma oligarquia tecnológica cujo maior objetivo é a criação de “shareholder value”. Como sociedade, aceitámos enveredar por uma lógica de otimização permanente, de crescimento económico contínuo, que deixou de ser meio para se tornar fim em si mesmo. Nesse contexto, parece-me que a grande aplicabilidade de inteligência artificial de que se tem falado tem sido para reduzir custos a nível empresarial- o que não é por si uma coisa má. Porém, a médio prazo, torna-se difícil imaginar profissões onde a máquina não seja melhor e mais eficiente do que o Ser Humano. As limitações atuais que não lhe permitem fazer tudo o que o Homem faz não são de princípio, mas antes técnicas e momentâneas. Tudo indica que serão ultrapassadas. Torna-se cada vez mais evidente que a inteligência artificial não vem apenas auxiliar, vem substituir.
Para que fique claro: o problema não é a existência desta tecnologia. Creio mesmo que pode resolver as grandes dores da humanidade, se for empregue a seu favor. O problema é que não há propriamente garantias de que o maior incentivo não seja a criação de valor para uma elite, tendo como custo “colateral” efeitos no Homem.

Mesmo que algumas profissões sobrevivam mais tempo, é difícil imaginar uma economia em que grande parte dos seus agentes perde o emprego. Em tom de reflexão, deixo algumas questões no ar: O que farão os humanos? Quem lhes paga? Quais as garantias de que serão respeitados os deveres intergeracionais para não comprometer quem vem a seguir?

 

A ideia otimista que afirma que viveremos todos de um Rendimento Básico Universal, com tempo livre para as artes e para o pensamento parece-me ser um autêntico cavalo de Troia. Para além disso impossibilitaria um sistema democrático, porque, como convém já sublinhar e escrever a negrito, no futuro, quem controlar os sistemas é quem efetivamente controla o poder. Se atualmente as pessoas temem – e com razão em alguns casos – a interferência de interesses privados nas decisões publicas, imagine-se numa sociedade e economia completamente assente em sistemas privados de AI.

 

Ainda, a substituição humana tem impactos escondidos. O trabalho não é apenas uma fonte de rendimento. Pode também ser um lugar de propósito. Sem ele, a vida perde densidade, e a inteligência artificial não oferece substituto. Engana-se quem acredita que ela trará uma compreensão mais profunda da vida. Pelo contrário! Há um afastamento progressivo, em que a ação no mundo real é trocada por refúgios virtuais. Parece-me muito mais plausível que proliferem realidades digitais capazes de anestesiar o ser humano do sentido da vida do que sociedades, dependente de um rendimento garantido, serenamente entregues à busca de significado.

 

Por fim, talvez o problema esteja precisamente aí! Como dizia a frase: com grandes poderes vêm grandes responsabilidades. Nos últimos tempos emergiu o maior poder da nossa história, mas sem um debate à altura dos riscos ou do caminho a seguir. Entre otimizações e a mentalidade de “crescer por crescer”, podemos ter perdido de vista o propósito da inovação: melhorar a vida da generalidade das pessoas. A questão já não é tecnológica, é civilizacional. Qual é o nosso objetivo enquanto espécie? É a otimização? É o bem-estar das pessoas? E se for, isso passa mesmo por nos tornarmos dispensáveis?

 

Pela primeira vez, a humanidade é forçada a responder à pergunta sobre o propósito da vida e não tem resposta. A prova disso, é que se tivesse, já teria um caminho direcionado para empregar a inteligência artificial, em vez de entregar o seu destino de olhos fechados a uma oligarquia tecnológica. A minha geração cresceu a normalizar a precariedade no emprego, que agora se estende ao próprio contrato social, que já não oferece garantias mínimas de previsibilidade e segurança.