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  • “O Mundo não espera por nós”, António José Seguro
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Miguel Tiago

No dia 1 de maio de 1974, abriram-se os caminhos de Abril. Foi nesse 1.° de Maio, Dia do Trabalhador,...

No dia 1 de maio de 1974, abriram-se os caminhos de Abril. Foi nesse 1.° de Maio, Dia do Trabalhador, que Abril mostrou ao que vinha. Ou melhor, que os trabalhadores mostraram que não permitiriam que, após 48 anos de ditadura violenta, comandada pelos latifundiários e pelo capital monopolista, o poder se limitasse a trocar de mãos e de forma.

Hoje como antes, é essa força de Maio, de milhões de pessoas que produzem a riqueza em Portugal, que defende todas as trincheiras da democracia e dos direitos sociais e laborais.
Se é verdade que os detentores dos privilégios económicos que controlavam o poder político até 74 nunca pararam de exercer todo o seu poder para reaver os privilégios perdidos, é igualmente verdade que, apesar das campanhas contra os direitos, pela mercantilização total da vida, pelo neoliberalismo, contra a organização sindical, contra o projeto constitucional de Abril, em momento algum os trabalhadores deixaram de defender o que conquistaram com a revolução.

O simples facto de os grandes interesses, donos da comunicação social, donos das grandes empresas, donos de governos inteiros, estarem há mais de 52 a tentar e a insistir para retomar todos os seus caprichos e o seu poder, demonstra bem quão importante é a luta de resistência e quão fundas e determinantes foram as conquistas dos trabalhadores.

O Serviço Nacional de Saúde, a escola pública, o acesso à justiça, a segurança das populações, o direito à criação e fruição cultural, o direito ao desporto, o direito a um horário, a um salário, à greve, às férias pagas, são apenas alguns exemplos dos direitos e conquistas que geralmente tentam resumir aos genéricos “liberdade e democracia”.

Abril não foi apenas, pesem as tentativas de o tornar nisso mesmo, uma mudança formal na tipologia de poder, uma troca de personagens, um jogo das cadeiras. Foi um processo em que transformações reais foram operadas na sociedade portuguesa e na economia. O poder dos monopólios foi verdadeiramente derrotado, a reforma agrária foi uma realidade de extremo alcance, os direitos na vida dos trabalhadores transformaram-se em realidades materiais.

50 anos de reconstituição do poder dos grandes interesses, com a ajuda constante de PS, PSD e CDS, e agora com Chega e IL a disputar o lugar de capataz de serviço, deturpam e amputam as conquistas de Abril, de Maio e da Constituição.

Mas 50 anos de resistência permitem dizer que é tão forte a nossa luta, que mais de meio século de braço de ferro constante, com uma tremenda assimetria de meios, não conseguiram ainda, nem vão conseguir, desfigurar o essencial de Abril: o que nos mostra que, com avanços e recuos, quem faz a história somos nós.