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  • “O Mundo não espera por nós”, António José Seguro
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Mário Carneiro

A comunicação social portuguesa identificou os alegados autores da agressão a Omar Al-Hayali, um refugiado iraquiano de 27 anos, com...

A comunicação social portuguesa identificou os alegados autores da agressão a Omar Al-Hayali, um refugiado iraquiano de 27 anos, com uma precisão invulgar: “alunos do Colégio Moderno”. Não foi “um grupo de jovens”. Não foram “menores identificados pela PSP”. Foram “alunos do Colégio Moderno”, com o nome completo da instituição, repetido na generalidade dos títulos, leads, e breaking news.

Esta é a mesma comunicação social que, há exatamente um ano , contava que “oito familiares de doente se exaltaram no Hospital Curry Cabral” e agrediram dois enfermeiros. Familiares. De doente. Que se exaltaram. É um título que poderia descrever uma discussão acalorada numa sala de espera. Não descreve oito pessoas a agredirem profissionais de saúde e a causarem estragos nas instalações.

O padrão é recorrente. Quando o grupo de suspeitos pertence a uma minoria que algum jornalismo decidiu isentar da identificação, o léxico transforma-se. Surgem os “grupos de familiares”, os “grupos com ligações familiares”, os “grupos de pessoas que se dedicam ao comércio itinerante”. A etnia desaparece do texto e fica apenas a geometria do grupo: o facto de serem muitos, o facto de serem família, o facto de terem actuado juntos. Tudo menos quem são.
Quando o grupo de suspeitos pertence a uma instituição que o mesmo jornalismo decidiu poder estigmatizar porque o estigma, neste caso, é virtuoso, porque serve a narrativa do privilégio a ser punido,então o nome da instituição repete-se como um mantra. Colégio Moderno. Colégio Moderno. Colégio Moderno.

Isto não é jornalismo com dois pesos e duas medidas. É jornalismo com uma balança. De um lado coloca-se o que pode ser dito, como o nome de um colégio privado e do outro lado coloca-se o que não pode ser dito: a etnia, a comunidade, o padrão de comportamento que se repete em hospitais de norte a sul do país. O que vai para o texto e o que fica de fora não é decidido pela relevância jornalística. É decidido pela “inteligentsia”.

Omar Al-Hayali merece toda a solidariedade e toda a justiça. A agressão de que foi vítima é repugnante não apenas pelo que foi feito, mas pela forma: um grupo a cair sobre um homem sozinho, na rua, de noite, sem provocação. Os “alunos do Colégio Moderno” que o agrediram merecem o peso da lei. Mas o leitor merece também um jornalismo que aplique os mesmos critérios a todos os casos independentemente de quem agride e de quem é agredido.