Frase do dia

  • “O Mundo não espera por nós”, António José Seguro
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Jorge Morais

Cá e lá fora (que a tolice não conhece fronteiras), a vida política é cada vez mais ruído e aparência....

Cá e lá fora (que a tolice não conhece fronteiras), a vida política é cada vez mais ruído e aparência. Chamam-lhe “comunicação”.

O homem público, que dantes era apreciado pela inteligência e pelo conhecimento, pela capacidade de organização e administração, pelo zelo e pela solidez de pensamento e ação, é hoje medido pelos soundbites que emite, pelas frases ocas que debita, pelos barulhos que faz com a boca, pelo padrão do fato que veste e pelo cenário que tem atrás.

Tudo é pretexto para aparecer e dizer coisas. Todos eles têm opiniões a dar sobre tudo, do movimento das galáxias ao bater de asas de uma joaninha. Falam, falam, falam sem que a voz lhes doa.

Governar, nos nossos dias, é “comunicar”. Não importa o que estão a dizer, o que é necessário é que digam.

Hoje, um governante não se governa com menos de trinta assessores, consultores e adjuntos – e uma boa parte deles está entregue à tarefa mais importante em todo o Ministério: “comunicar”. Parece mesmo que nomearam um Ministro da tutela.

Porque “comunicar” não é apenas abrir a boca. Há toda uma ciência em torno da gestão da agenda mediática, dos temas in e dos temas out, da pose a três quartos, do hair style e da cor da gravata.

 

O homem público de hoje passa um terço do seu tempo a dizer baboseiras e outro terço a escrever inanidades nas “redes sociais”. O que sobra é para estar ao espelho.

A televisão é agora uma feira da ladra sem travões.

Os Governos são tunas de pregoeiros à desgarrada.

Só lhes falta, mesmo, como há tempos aqui sugeriu José Paulo Fafe, um ridiculómetro que os meça.

O apuramento técnico e o refinamento estilístico deste coro de escravos alastra às brenhas. Até há pouco, as habilidades canoras mobilizavam sobretudo os grandes tenores e sopranos do poder central, mais próximos dos altifalantes da “comunicação”. Mas a moda já vai à província.

Tenho diante de mim o flagrante de uma reunião de vereadores de uma obscura Câmara Municipal do Minho profundo. Toda a encenação decalcada está feita para a fotografia: as bandeiras ao fundo, como no Conselho de Ministros, o prrrrresidente no topo da mesa e o resto da tropa fandanga em frente de uma floresta de microfones, computadores e garrafas de água do Luso. Parece uma cimeira da Nato. E é para parecer assim que está construída. Não vale a pena tentar perceber para que querem eles os microfones, se estão a um metro de distância uns dos outros. Na maior das probabilidades, nem estão ligados.

Quem se ocupa, afinal, da rede de esgotos e do centro de saúde? Sim, andando quem devia fazer preocupado com as árduas tarefas de parecer, perguntar-se-á: alguém está a pensar no governo das coisas desta vida, ou estão todos a ajeitar o colarinho e a compor o vestido?