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  • “O Mundo não espera por nós”, António José Seguro
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Jorge Morais

Completará na próxima semana cem anos de vida o cientista David Attenborough, que o mundo conhece dos seus filmes e...

Completará na próxima semana cem anos de vida o cientista David Attenborough, que o mundo conhece dos seus filmes e séries sobre a vida selvagem, o ambiente e a defesa dos recursos naturais do planeta. Vezes e vezes sem conta o vimos a abraçar macacos, a espreitar ninhos de víbora, a mergulhar na corrente dos salmões, a dissecar plantas equatoriais, a falar com elefantes, a filmar crateras de vulcões, a analisar fumos de fábrica, a seguir carreiros de formigas como quem desvenda o grande enigma universal. Não há, entre os documentaristas de televisão e os divulgadores científicos, quem se assemelhe a este homem extraordinário, cuja vida se confunde com o próprio pulsar da Terra.

Graduado em Ciências Naturais em Cambridge, estreou-se na BBC em 1952 com o programa “Animal, Vegetable, Mineral”, logo seguido pelas primeiras produções sobre a vida selvagem, “Animal Patterns” e “Zoo Quest”.

Depois de uma pós-graduação em Antropologia Social, David Attenborough aceitou dirigir a BBC2 (foi ele quem deu luz verde ao “Monty Python’s Flying Circus”) e gerir toda a BBC Television. Foram sete anos de fato e gravata e responsabilidades de administração, ao longo dos quais ainda conseguiu algumas escapadelas para documentar a história cultural de Bali, filmar a vida dos elefantes na Tanzânia (1969) e participar numa expedição às terras altas da Nova Guiné. Em 1972, farto do cativeiro, decidiu voltar ao documentário e ao ar livre. “Amanhã vou presidir a uma reunião do comité financeiro”, anunciou ele um dia a Denis Tuohy, “e será a última vez que tenho de vestir este maldito fato!”.

Compôs-se então a figura de David Attenborough que perdura até hoje: calça de caqui, camisa azul, escalando montanhas e descendo a vales, dos gelos aos trópicos, filmando tão próximo de plantas e animais que quase podíamos tocá-los nós como ele os toca. Logo em 1973 filmou na Indonésia (“Eastwards with Attenborough”), seguindo-se “The Tribal Eye”, “The Explorers” e “Fabulous Animals” (este para crianças, 1975). Surge então a sua grande trilogia sobre comportamento animal, que o tornou conhecido em todo o mundo, envolvendo mega-produções com filmagens em centenas de locais de vários continentes e mais de 500 cientistas colaborando nos bastidores: “Life on Earth” (1979), “The Living Planet” (1984) e “The Trials of Life” (1990).

Não há recanto do mundo ou aspeto da vida natural que David Attenborough não tenha documentado: a Antártida em “Life in the Freezer”, o reino vegetal em “The Private Life of Plants”, as aves em “The Life of Birds”, os mamíferos em “The Life of Mammals”, os invertebrados em “Life in the Undergrowth”, répteis e anfíbios em “Life in Cold Blood”, a vida marinha em “The Blue Planet”, o equilíbrio ambiental em “Planet Earth”, as alterações climáticas em “Nature’s Great Events”, os recifes de corais em “Great Barrier Reef”, os dinossauros em “The Final Day” e “Prehistoric Planet” – sem esquecer o maravilhoso “The Queen’s Green Planet” (2018), um documentário de 90 minutos em que Sir David passeia descontraidamente com a Rainha Isabel II pelos 16 hectares de jardim de Buckingham House.

Na televisão, na rádio, em conferências e colóquios, em livros (a sua última obra escrita foi publicada há pouco em Português sob o título “Oceano / O Último Reduto Selvagem”), David Attenborough tem sido a mais constante voz em defesa do património natural da humanidade. Tem sido e é, pois Attenborough continua tão ativo como sempre.

No final de 2025 estreou na BBC1 duas novas séries documentais, sobre a vida animal na Zâmbia (“Kingdom”) e a paternidade no reino animal (“Parenthood”), ao mesmo tempo que era difundido o seu documentário sobre a vida aquática (“Ocean”), logo seguido de um conjunto de entrevistas inéditas sobre a sua relação pessoal com a Natureza (“Making Life on Earth / Attenborough’s Greatest Adventure”). No primeiro dia deste ano a BBC1 emitiu o seu documentário sobre a vida selvagem desconhecida na capital britânica (“Wild London”). Em Abril estreou uma série de cinco episódios sobre fauna e flora nos quintais das casas inglesas (“Secret Garden”).

Prepara-se agora para a grande celebração do seu centenário, no próximo dia 8 de Maio, no Royal Albert Hall, em Londres: “David Attenborough’s 100 Years on Planet Earth”.

Isto, sim, é viver a vida a plenos pulmões. Abençoado David Attenborough.