Notícia de última hora: está a chover. Alerta amarelo: sopra um ventinho desagradável. Laranja: faz frio. Vermelho: ondas no mar...
Notícia de última hora: está a chover. Alerta amarelo: sopra um ventinho desagradável. Laranja: faz frio. Vermelho: ondas no mar e geada nas terras altas. Parem as máquinas, que é o fim do mundo!
Isto, a que antigamente chamávamos simplesmente Inverno, é hoje tema de abertura de noticiários. Meninas de olhos arregalados anunciam, aterrorizadas: “mínimas de 13 graus em Portalegre”. Salve-se quem puder!
Para poupar tempo, posso já adiantar algumas notícias trepidantes do ano que começa: em Março chega a Primavera com manhãs frescas e tardes amenas, em Junho anuncia-se o Verão com caloraças a Sul, em Setembro cai a folha de Outono e em Dezembro o Inverno traz o frio, o vento e a chuva.
Posso ainda avançar outras revelações surpreendentes para 2026: o primeiro dia do ano calha a 1 de Janeiro (uau!) e o 1º de Maio acontece no primeiro dia a seguir ao quarto mês; o Carnaval é em Fevereiro e o Natal em Dezembro; a Páscoa chega no primeiro domingo a seguir à primeira lua cheia depois do equinócio da Primavera; e o último dia do ano coincide (vejam lá!) com 31 de Dezembro.
Apercebi-me pela primeira vez desta moda de fazer do trivial um caso quando, numa farmácia de Lisboa, uma jovem farmacêutica pretendeu explicar-me como se toma uma aspirina. “E, já agora, quer ensinar-me a respirar?”, perguntei. Ela não percebeu.
Bem sei que a sociedade se infantilizou terrivelmente em poucos anos e que aquilo que considerávamos coisas próprias da vida (a dor, a alegria, a morte, o parto, a doença, as lágrimas, as estações do ano, o limão azedo, o morango encarnado e a pimenta picante) são hoje motivo de surpresa, novidade espantosa. Vou já a correr contar ao mundo e comentar nas redes.
Quando se trata do clima, porém, a parvoíce raia a esquizofrenia. A beleza da ondulação furiosa numa manhã de Inverno, à beira-mar, dá direito a alarme nas televisões. O ribombar severo do trovão, a brisa ondulando a seara, uma serenata à chuva – são agora catástrofes dantescas, com senhores sisudos do circunspecto Instituto Português do Mar e da Atmosfera a opinarem na pantalha. Deve ser o anticiclone dos Açores. Fujam! Crianças e mulheres primeiro!
Entramos em 2026 sob o signo de uma depressão: a Depressão Francis, a 21.ª depressão dos últimos meses.
Entre depressões e tempestades, tivemos mais de 40 desde Fevereiro. Quatro por mês. Uma por semana. Como sucedeu no ano anterior. Como há dez anos. Como sucedia há cem. Há mil. Há dez mil.
E, no entanto, ei-las elevadas à categoria de novidades assustadoras. Com direito a nome próprio. Francis. Alice. Chantal. Benjamin. Cláudia. Dexter. Emília. Gabrielle. Joana. Kay. Olívia. Telma. Wilma. Andrea. Barry. Lorenzo. Melissa. Tanya. Wendy. Até tivemos um Furacão Nestor, com mil milhões de raios e trovões!
Vejam se encontram em 2026 o que há muito anda perdido: o bom senso.