Portugal gosta de dizer que é um país de empreendedores. E até pode ser, mas talvez não pelas razões mais...
Portugal gosta de dizer que é um país de empreendedores. E até pode ser, mas talvez não pelas razões mais positivas.
O tecido empresarial português assenta esmagadoramente em micro, pequenas e até nano empresas. Em muitos casos, não falamos de empreendedores no sentido clássico, mas de profissionais que, perante a necessidade, criaram o seu próprio negócio. Tornaram-se empresários na prática, muitas vezes sem formação em gestão, sem rede de apoio estruturada e com uma aprendizagem feita à força da experiência. E isso tem todo o mérito…há que reconhecer o espírito, a vontade, o empenho e a resiliência. Mas apesar de tudo, a grande maioria dessas empresas continuam, décadas depois, a ser…pequenas!
Durante décadas, esse esforço, dedicação e capacidade de criar pequenos negócios foi suficiente para sobreviver. Hoje, já não chega.
A concentração da atividade económica nas áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto tende a esconder uma realidade menos visível, mas fundamental. A de que existe um vasto país empresarial fora destes grandes centros, mais fragmentado, menos apoiado e, sobretudo, mais exposto ao risco de ficar para trás. É nesse território que se joga uma parte crítica da competitividade nacional e é também aí que os défices de competências, em particular digitais, mas também de gestão, são mais evidentes.
Entretanto, o discurso público evoluiu. Fala-se agora, e bem, de transição digital, de inteligência artificial, de automação, de dados. Multiplicam-se anúncios de programas, incentivos e fundos. O problema é que, demasiadas vezes, se parte de um pressuposto errado, de que o puro acesso à tecnologia resolve o problema.
O mito de que ter Fibra Ótica, ter eMail e um Website é o suficiente para navegar nas águas duras da competitividade global.
Mas o acesso à tecnologia não resolve esses problemas!
A verdadeira barreira à transformação digital das PME’s portuguesas não é tecnológica, mas é sim, humana. Está nas competências, ou na falta delas, de quem lidera as empresas. Está na dificuldade em compreender o que é relevante, em escolher prioridades, em implementar mudanças e em extrair valor real das ferramentas disponíveis.
Digitalizar processos sem mudar mentalidades, sem alterar a cultura da organização, sem otimizar e transformar, é apenas informatizar ineficiências.
É aqui que o país continua a falhar. A resposta não pode ser genérica, nem centralizada, nem desligada da realidade concreta das empresas. Não chega oferecer formação avulsa ou dar acesso a plataformas digitais. É necessário construir soluções enraizadas no território, com proximidade, continuidade e foco na aplicação prática, de preferência com enfâse setorial.
Isso implica criar verdadeiras parcerias entre empresas, universidades e politécnicos, consultores e associações empresariais, num contexto territorial.
Envolver os municípios e as estruturas locais ou regionais (CCDR’s, CIM’s e similares). Implica levar conhecimento a quem decide, mas de forma acionável,adaptada ao contexto, à geografia, à dimensão e ao setor de cada empresa. Implica, sobretudo, reconhecer que estamos a falar menos de tecnologia e mais de liderança. Menos de ferramentas digitais e mais de soft skills…menos de Inteligência Artificial e mais de Inteligência Emocional.
Porque, no fim, a competitividade não se mede pelo número de ferramentas disponíveis, mas pela capacidade de as usar com inteligência e os seus resultados no negócio.
Portugal não precisa apenas de empresas mais digitais. Precisa de líderes mais preparados para gerir num mundo digital. Líderes que saibam tirar partido das ferramentas que o Mundo Digital nos traz todos os dias e converter as mesmas em vantagens competitivas, em Inovação de negócio, em capacidade de exportação ou em criação de talento