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  • “O Mundo não espera por nós”, António José Seguro
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Nicolae Sena Santos

A hipótese de Pedro Nuno Santos abandonar o Partido Socialista para fundar um movimento político à imagem de Jean-Luc Mélenchon...

A hipótese de Pedro Nuno Santos abandonar o Partido Socialista para fundar um movimento político à imagem de Jean-Luc Mélenchon tem sido ventilada com um misto de curiosidade e inquietação. A ideia, ainda que especulativa, merece uma análise, não tanto pelo seu valor mas pelas ilusões que transporta.

Desde logo a comparação com o caso francês revela-se problemática. O sistema partidário português, apesar das suas tensões internas e ciclos de desgaste, é estruturalmente mais estável do que o francês. Ao contrário da fragmentação crónica que permitiu o surgimento de fenómenos como a La France Insoumise, Portugal mantém uma matriz partidária muito mais consolidada, com eleitorados mais previsíveis e menos permeáveis a rupturas personalistas. A importação de modelos políticos estrangeiros, sem atender às especificidades institucionais e culturais tende a produzir mais ruído do que resultados.

Por outro lado, a história recente da democracia portuguesa oferece exemplos claros das limitações dessas “aventuras” dissidentes. Pedro Santana Lopes, após um percurso relevante no Partido Social Democrata, procurou reinventar-se com a criação de um novo projecto político, sem expressão eleitoral significativa. De igual modo, Manuel Monteiro, antigo líder do CDS-PP ensaiou uma alternativa fora das estruturas tradicionais, também sem sucesso relevante. Estes precedentes não são meros acidentes, revelam um padrão consistente de rejeição, por parte do eleitorado, de iniciativas que fragmentam ainda mais o espaço político sem oferecer uma proposta distintiva suficientemente robusta.

No campo da esquerda o problema dificilmente pode ser descrito como uma escassez de oferta partidária. Entre o Bloco de Esquerda, o Partido Comunista Português, o Livre e outras formações menores, existe uma pluralidade de opções que cobre um espectro ideológico alargado. O declínio eleitoral verificado nos últimos anos não decorre da ausência de oferta, mas antes de uma erosão da base social e eleitoral da esquerda. Ignorar este facto e apostar na criação de mais uma estrutura política equivale a confundir o sintoma com a causa.

A questão central não reside na falta de opções, mas na capacidade de compreender por que razão uma parte significativa do eleitorado se afastou. Mudanças no mercado de trabalho, transformações demográficas, novas clivagens culturais e uma crescente desconfiança nas instituições são factores que exigem resposta política substantiva. Sem esse trabalho de diagnóstico qualquer novo movimento arrisca repetir os mesmos erros, apenas com outra designação e neste caso hipotético, com um rosto já associado a derrotas claríssimas.

A eventual tentação de seguir o exemplo de Jean-Luc Mélenchon ignora, assim, as diferenças estruturais entre os contextos nacionais e sobrestima o peso das lideranças individuais em detrimento das dinâmicas sociais profundas. Em Portugal, a estabilidade do sistema partidário não é apenas um dado institucional, é também um reflexo de uma cultura política que privilegia continuidade e previsibilidade.

A eventual saída de Pedro Nuno Santos para fundar um novo movimento à esquerda dificilmente constituiria uma solução para os problemas actuais desse campo político. Pelo contrário, tenderia a acentuar a fragmentação e a dispersão de forças, sem resolver a questão essencial que é a perda de ligação entre partidos e eleitores. Sem enfrentar essa realidade, qualquer “nova” proposta corre o risco de ser apenas mais uma experiência condenada a confirmar um padrão já bem conhecido.