Frase do dia

  • ''Não compreendo o que estás a fazer na Gronelândia'', Emmanuel Macron para Donald Trump
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Jorge Morais

Enquanto a Leste e a Oeste andam os diabos à solta, caem-me os olhos na fotografia oficial da visita que...

Enquanto a Leste e a Oeste andam os diabos à solta, caem-me os olhos na fotografia oficial da visita que a jovem Kim Ju-ae fez há dias aos mausoléus da dinastia Juche, em Pyongyang, na companhia de seu amado pai, o querido líder e guia supremo, Kim Jong-un. 

Aqui está a família imperial norte-coreana em moldura de oiro debruada a vermelho. 

Aqui está o semi-deus grotesco na sua barriga disforme, perfil quadrado e mãos papudas espreitando das mangas do número acima, enfastiado de coca-cola, tabaco e orgias de manjares e bailarinas, o olhar de réptil de Komodo trespassando a objetiva do fotógrafo. 

A seu lado está a pobre marioneta, primeira na linha sucessória sem ousar sair da linha, imobilizada na teia urdida pelas aranhas do comité central, boneca sintética da loja do chinês em posição de sentido. 

A seguir vêm os funcionários do partido todos vestidos de igual, todos penteados de igual, com o mesmo emblema na mesma lapela, o mesmo sorriso pungente, as mesmas caras assustadas de chefes-de-turma serôdios repetidas fila a fila.

Ao lado, em formatura, os generais com o peito coberto de caricas, autómatos dos bonecos animados, todos receando mexer uma pálpebra dois milímetros para lá do que o semi-deus permite, todos antecipando em suores frios a hora em que o seu nome sairá na ordem do dia do paredón dos fuzilamentos, na lista negra que os reconduzirá à condição de escravos nas minas de carvão da remota Hamgyong. 

Na retaguarda, tapado pela foto, está o povo comendo batata com molho de relva nas gaiolas com paredes de vidro do Estado.

O povo pedalando em silêncio para a fábrica, curvando a espinha perante a estátua do pai, e do avô, e da prima do querido líder.

O povo intoxicado de locutoras em pranto na televisão do guia supremo, o povo saudando respeitosamente as limousines que passam na avenida de Pyongyang.

O povo ignorante do mundo que fica para lá do muro, o povo figurante esquizofrénico num big brother que o espia do berço à tumba.

E pergunto-me se do lado de cá, neste nosso outro mundo onde falamos o que queremos, viajamos para onde nos apetece e somos convidados a votar com a liberdade de uma esferográfica numa cruzinha, deste lado onde os ministros não andam de pistola à cinta e não há enforcamentos oficiais a abrir o telejornal, deste lado onde não temos prisioneiros políticos nem políticos prisioneiros da loucura, deste lado onde nos casamos com quem queremos, onde só rezamos a um semi-deus se tivermos fé, deste lado onde o mundo nos fica à distância de um clic, deste lado onde não vêm prender-nos a casa a meio da noite, pergunto-me se deste lado de cá sabemos verdadeiramente apreciar o bem que temos.