Ouvi hoje, apenas ao de leve, os tradicionais discursos do 25 de Abril na Assembleia da República. Ao de leve...
Ouvi hoje, apenas ao de leve, os tradicionais discursos do 25 de Abril na Assembleia da República. Ao de leve porque, para alguém, como eu, que considera o 25 de Abril o dia mais feliz da sua vida, ouvir o sem-fim de banalidades e lugares-comuns que se dizem de há uns tempos, todos os anos, nesta data, no mínimo provoca prolongadas e insuportáveis náuseas.
Da direita à esquerda, o que escutamos cada ano sobre o 25 de Abril é triste, confrangedor, penoso até, e antecipa o que infelizmente parece inevitável – que daqui a uns anos, à semelhança do que ocorre com as estafadas comemorações do 5 de Outubro, acabem todos, como autómatos, e a arrastar os pés, em entediantes romagens ao Largo do Carmo, e a pôr coroas de cravos vermelhos no cimo do Parque Eduardo VII,
Um dia que há 52 anos foi de festa, de alegria, de entusiasmo, e principalmente de esperança, é comemorado agora, já de há algum tempo a esta parte, de forma enfadonha, sem um pingo de imaginação, e insuportavelmente sublinhado por discursos caducos e sem chama, muitas vezes proferidos por quem, bem lá no fundo, não faz mesmo a pálida ideia do que aquele dia significou para quem o viveu.
Verdade seja dita também que, do lado de quem fez, ou melhor, dos que vivem ‘à conta’ de quem de facto fez, o 25 de Abril, o panorama não é diferente. Desaparecidos que estão as grandes figuras daquele dia, dos que souberam enquanto vivos comportarem-se de uma forma eticamente irrepreensível, e sem ceder a fáceis e equívocos deslumbres (estou a lembrar-me, por exemplo, de Vítor Alves e Melo Antunes, entre alguns outros), a data foi infelizmente ‘entregue’ a quem, à falta de outro suposto talento, insistiu em dela se apropriar e nela ‘cavalgar’ de forma tosca, nociva e contraproducente.
Sem perceberem que ‘tradição’ não tem necessariamente que ‘rimar’ com ‘banalidade’, e que ‘comemorar’ não é tão-pouco sinónimo de ‘trivialidde’, estão todos eles, sem exceção, a dar cabo da memória e da verdadeira importância histórica de uma data que valerá sempre muito mais do que mal-amanhados discursos repletos de lugares-comuns e frases feitas, que mais não são que a tradução da mediocridade e da falta de categoria que, salvo raríssimas exceções, se instalou na política e na sociedade portuguesa.