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  • “O Mundo não espera por nós”, António José Seguro
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Manuel dos Santos

A derrota de Viktor Orbán, nas recentes eleições húngaras, parece, à primeira vista, uma viragem histórica. Mas convém não celebrar...

A derrota de Viktor Orbán, nas recentes eleições húngaras, parece, à primeira vista, uma viragem histórica. Mas convém não celebrar cedo demais.

A Hungria não deixou de ser um problema estrutural para a União Europeia. Mudou o protagonista; falta saber se mudou o enredo.

Orbán não surgiu do nada.

Em 1989, um jovem desconhecido destacou-se com um discurso contra o comunismo e a favor da liberdade e da integração europeia.

O momento é hoje quase irónico: quem simbolizava a ruptura com o autoritarismo tornou-se um dos principais praticantes desta prática dentro da UE.

A partir de 2014, Orban abandona o europeísmo e constrói uma narrativa na qual Bruxelas passa a ser o inimigo interno.

Adopta uma linha nacional populista, próxima da matriz putiniana, usando a soberania como pretexto para fragilizar instituições independentes.

Em 2016, radicaliza o discurso anti-imigração, denunciando, com violência, uma ameaça praticamente inexistente.

O conceito de “democracia iliberal”, assumido em 2021, apenas formaliza o óbvio: um regime com eleições, mas sem Estado de direito efectivo.

Beneficiado com uma supermaioria parlamentar, redesenha o sistema político, captura instituições e transforma fundos europeus em instrumentos de poder interno.

A Corrupção e o clientelismo tornam-se estruturais.

No plano europeu, o impacto foi profundo.

Durante a guerra na Ucrânia, Orbán fragilizou a unidade europeia e usou o veto para bloquear decisões críticas, transformando a chantagem num método político.

É neste contexto que surge Peter Magyar.

A sua vitória não representa uma revolução ideológica, mas uma rejeição do funcionamento do sistema.

Vindo da mesma família política, rompe menos com o conservadorismo e mais com os abusos de poder.

Apresenta-se como conservador, com traços populistas, mas promete restaurar o Estado de direito e reaproximar a Hungria da UE.

Ainda assim, persistem dúvidas.

O compromisso europeu é claro, mas posições sobre Ucrânia, Rússia e Estados Unidos permanecem ambíguas.

Vai anular o veto ao apoio financeiro a Kiev. Mas com que custo para a UE? Os fundos retidos serão desbloqueados antes da obtenção de garantias concretas sobre a reposição do estado de direito?

A base eleitoral jovem que apoia Magyar pode ser uma oportunidade para reconstruir uma identidade europeia na Hungria.

Mas isso não acontecerá se for percecionado como imposição externa, pelo que Bruxelas terá de equilibrar firmeza com inteligência política.

A questão central mantém-se, portanto: como deve agir a União?

A reacção inicial às eleições na Hungria foi eufórica, mas nada garante que uma simples mudança de liderança elimine totalmente práticas enraizadas.

O “cavalo de Tróia” não desapareceu; tornou-se apenas menos visível.

Outros Estados Membros mantêm ainda posições ambíguas ou hostis à integração, podendo bloquear decisões e alinhar com interesses alheios.

Insistir nos mesmos mecanismos é , assim, ingenuidade.

A exigência de unanimidade em matérias críticas tornou-se um convite ao bloqueio.

Reformular esta regra deixou de ser um
debate académico para se tornar uma necessidade operacional.

Ao mesmo tempo, os mecanismos de controlo financeiro devem ser aplicados com consistência.

Os fundos europeus não podem financiar derivas autoritárias.

A condicionalidade não é uma punição, mas, sim, uma outra forma de protecção do projeto europeu.

Surge agora um novo factor de tensão: a Espanha de Sanchez, eleitoralmente acossado, começa a desafiar consensos em áreas-chave, expondo, de novo, a fragilidade de uma União sem linha comum sólida, quando os interesses nacionais colidem.

A União Europeia está, portanto, num momento de teste.

A mudança na Hungria é uma oportunidade, não é uma solução.

Se Bruxelas reagir com complacência, repete erros. Se reagir com rigidez excessiva, alimenta populismos.

O caminho útil é exigente: condicionar sem humilhar, integrar sem ceder nos princípios e reformar regras que já não respondem à realidade.

Porque o problema nunca foi apenas Orbán.

Foi, e continua a ser, a vulnerabilidade estrutural de uma União que ainda não decidiu até onde está disposta a ir para se proteger.