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  • “Trump nem saberá onde fica o Irão”, Miguel Sousa Tavares
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João Vasco Almeida

Entretanto, andamos a ver o vendaval. Não o vento em si, que é apenas ar com opiniões fortes, mas o...

Entretanto, andamos a ver o vendaval. Não o vento em si, que é apenas ar com opiniões fortes, mas o que ele revela quando passa: um quartel de bombeiros, esse objecto místico que julgávamos indestrutível, aparece destruído. O telhado, placas de zinco com rebites da loja dos 300, voou para longe. Não foi metáfora. Foi mesmo para longe, talvez para um sítio onde os rebites são promovidos a convicções.

Penso nisto e lembro-me de quando as Igrejas eram o último reduto de segurança. Entrava-se lá como quem entra num cofre. Hoje, entra-se num quartel e sai-se com a sensação de que alguém poupou onde não devia e investiu onde não fazia falta. A fé mudou de morada. E a engenharia também.

Os fios de comunicações e electricidade, que a lei mandou enterrar há décadas, continuam alegremente em postes de pau, erguidos como espantalhos. São postes optimistas. Acreditam no futuro. Acreditam que o sopro do Adamastor é apenas um boato literário. Depois caem. E nós caímos com eles, mas sentados no sofá, apáticos ou angustiados, sem net para jogar ao jogo das bolinhas coloridas.

O Governo, esse organismo que reage por fases lunares, espera mais 24 horas de borrasca para decretar o estado de sítio, ou de calamidade, ou, melhor ainda, de “desorientação total”. Esta última é a mais honesta. Não resolve nada, mas descreve tudo.

Ríamo-nos dos tufões na América, das pobres casas de madeira sem caboucos, a voar como ideias mal pregadas. Agora percebemos. A chuva em Portugal, violenta ou suave, será sempre de molha-tolos. A frase dói porque cola. Cola como zinco mal rebitado.

Penso, com aquela ansiedade doméstica enrolada em mantinhas, se não seremos todos edifícios importantes construídos com sobras. Prometemos resistência estrutural e entregamos improviso. Temos regulamentos, temos discursos, temos inaugurações. Falta-nos o invisível: aquilo que não aparece na fotografia e segura tudo quando o vento decide testar a nossa autoestima colectiva.

Talvez o vendaval não destrua. Apenas pergunte porque estamos e somos assim: trafulhas, aldrabões, moscambilheiros. No fim, desligo o rádio. O vento continua. Eu também. Só não sei por quanto tempo os rebites republicanos aguentam.