A última eleição presidencial portuguesa decidida na segunda volta foi disputada em 1986 entre Diogo Freitas do Amaral, do então...
A última eleição presidencial portuguesa decidida na segunda volta foi disputada em 1986 entre Diogo Freitas do Amaral, do então Partido do Centro Democrático Social (CDS) e Mário Soares do Partido Socialista (PS). Na primeira volta, o placar foi folgado e Amaral liderou com 46,31% dos votos válidos contra 25,43% de Soares. Na segunda volta, no entanto, Soares, em uma virada espetacular, saiu vitorioso com 51,18%. 40 anos depois a história se repete e os portugueses voltarão às urnas no dia 8 de fevereiro de 2026 para escolher o novo Presidente da República. A Figura 1 ilustra o percentual de votos dos candidatos durante a primeira volta.

No primeiro turno, António José Seguro (PS) liderou a disputa com 31,12% dos votos. Por sua vez, André Ventura (CHEGA) ficou em segundo lugar, com 23,52%. Na sequência, João Cotrim de Figueiredo (16,01%), Henrique Gouveia e Melo (12,32%) e Luís Marques Mendes (11,3%) também alcançaram votações superiores a dois dígitos.
Este artigo apresenta um novo método para calcular resultados eleitorais. Em particular, desenvolvemos um modelo matemático que usa a distância ideológica para estimar como os votos dos candidatos que ficaram pelo caminho serão redistribuídos entre aqueles que ainda seguem na disputa. Imagine que cada partido e cada candidato ocupam um lugar num grande espaço ideológico. Esse mapa tem, pelo menos, uma avenida principal: o eixo esquerda–direita. De um lado, propostas mais igualitárias e redistributivas, tradicionalmente vinculados a candidaturas à esquerda. Do outro, posições que agregam liberalismo econômico e conservadorismo de costumes, fórmula conhecida entre candidatos populistas como Trump nos Estados Unidos e Bolsonaro no Brasil, por exemplo. Na Ciência Política, esse eixo é frequentemente medido por indicadores que resumem a posição dos partidos nesse espectro. Em nosso estudo, cada partido recebe uma morada nesse mapa. Usamos as estimativas produzidas pelo 2024 Chapel Hill expert survey que entrevistou 609 especialistas em 31 países da Europa <https://www.chesdata.eu/2024-chapel-hill-expert-survey-ches>. A Figura 2 apresenta as duas medidas de ideologia utilizadas em nosso modelo analítico.

O princípio teórico é simples: quanto mais perto ideologicamente um eleitor está de um candidato, maior a probabilidade de votar nele. É o mesmo que acontece fora da política. Quem frequenta um restaurante vegetariano tende a preferir outro restaurante parecido, não uma churrascaria. Na política, funciona de forma semelhante. Um eleitor de esquerda tende a preferir outro candidato de esquerda, mesmo que não seja o seu favorito original. Um eleitor conservador tende a migrar para quem lhe parece mais próximo. Depois de identificar os dois finalistas (Seguro com 31,12% e Ventura com 23,52%), o modelo olha para todos os candidatos eliminados e faz a seguinte pergunta: este eleitorado está mais perto do PS ou mais perto do Chega? A resposta não é “sim” ou “não”. É uma proporção. Se um partido está muito próximo do PS e muito distante do Chega, a maior parte de seus votos tende a migrar para o PS. Se está no meio do caminho, os votos se dividem. Se está claramente mais próximo do Chega, a migração se inverte. A Tabela 1 apresenta estimativas para a votação da segunda volta na eleição presidencial de 2026 em Portugal considerando três diferentes cenários.

O primeiro cenário exclui da análise o candidato Henrique Gouveia uma vez que ele apresenta candidatura independente e, por esse motivo, não consta com uma legenda previamente classificada na escala do Chapell Hill, o que impede o cálculo da distância ideológica. Nesse cenário, o modelo aponta para a vitória de Seguro com 58,6% dos votos válidos. O segundo cenário tenta superar esse problema e, com auxílio de ferramentas de inteligência artificial, classifica Henrique Gouveia no espectro ideológico. Ele recebeu escore de 2,1 no índice galtan, que varia entre 0 para partidos libertários/pós–materialistas até 10 para legendas consideradas tradicionais/autoritárias, conforme a metodologia do Chapell Hill e 2,8 na escala lrgen, que varia de 0 para partidos de extrema esquerda até 10 para legendas de extrema direita. Com essa inclusão, a vantagem de Seguro aumenta e sua votação projetada é de 62,1%. Por fim, considerando a inclusão de Henrique Gouveia, mas restringido o modelo a apenas um indicador de ideologia, a estimativa para Seguro é de 57,8%. Ou seja, em todos os cenários, nosso modelo aponta para a vitória de Antônio Seguro com uma vantagem confortável.
Para garantir resultados mais robustos, simulamos ainda um quarto cenário em que a ideologia de Henrique Gouveia e Melo foi arbitrada a partir de auscultação de especialistas portugueses. Fomos informados de que o candidato exibiu um comportamento inconsistente ao longo da campanha, alternando discursos de matriz tecnocrática, conservadora e moderadamente reformista. Por esse motivo, codificamos a sua posição ideológica no ponto médio da escala (5), de modo a refletir essa ambiguidade programática e evitar a imposição artificial de uma orientação política mais definida do que aquela efetivamente observada no debate público. Com esses parâmetros, o modelo retornou 60,4% para Seguro e 39,6% para Ventura.
Levantamento recente da Pitagórica com uma amostra de 608 entrevistas e com margem de erro máxima de 4,06% aponta 61,9% de intenção de voto em Seguro, 26,2% em Ventura e 7% de indecisos. Ainda, mais de 90% dos eleitores afirmaram que a sua intenção é definitiva. Estimativas do Radar do Observador, que agrega resultados de pesquisas, mostra Seguro com 70,17% e Ventura com 29,83%. Em suas redes sociais, André Ventura postou o resultado de uma enquete online em que aparece com 63,16% contra 36,84% de Seguro.
A nossa abordagem exibe duas principais vantagens em relação aos métodos tradicionais de sondagem eleitoral. Primeiro, é significativamente mais económica e replicável. Não exige grandes operações de campo, podendo ser aplicada rapidamente a diferentes contextos eleitorais, desde que existam dados ideológicos fiáveis. Segundo, o modelo é imune a problemas clássicos das sondagens, como amostras enviesadas, taxas de não resposta, enviesamentos sociais ou erros de formulação de perguntas. Ao trabalhar com dados independentes da opinião declarada, evita distorções frequentes nas pesquisas. Como principal limitação, por ser método estrutural baseado em algoritmos matemáticos, o modelo não captura automaticamente oscilações conjunturais, emoções de campanha ou eventos raros como tragédias pessoais ou catástrofes naturais.
Ao trabalhar com médias, distribuições e distâncias ideológicas, este tipo de abordagem capta padrões coletivos, mas não consegue observar as motivações íntimas e as hesitações pessoais que ocorrem no interior de cada eleitor. Trata-se do conhecido “problema ecológico”: inferir comportamentos individuais a partir de dados coletivos envolve, inevitavelmente, perdas de informação. Assim, as projeções aqui apresentadas não devem ser lidas como previsões deterministas, mas como cenários plausíveis, construídos a partir das regularidades observáveis no comportamento político. O valor do modelo reside menos em adivinhar votos um a um e mais em qualificar a força estrutural que restringe as escolhas eleitorais. Em 8 de fevereiro, tiraremos a prova da utilidade desse método: quando as urnas se fecharem, será possível avaliar até que ponto uma ferramenta menos vulnerável ao ruído das campanhas consegue antecipar, com sobriedade e consistência, o desfecho eleitoral. Bom voto e boas eleições!
Dalson Figueiredo (UFPE) – Professor associado, atual coordenador do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da UFPE e bolsista de produtividade do CNPq
Ernani Carvalho (UFPE) – Professor titular da UFPE, coordenador do Praetor (Grupo de Estudos sobre Poder Judiciário, Política e Sociedade) e bolsista de produtividade do CNPq