As eleições presidenciais não são um ritual simbólico nem um espaço para declarações de intenção sem consequência. São uma escolha...
As eleições presidenciais não são um ritual simbólico nem um espaço para declarações de intenção sem consequência. São uma escolha concreta sobre quem tem condições para disputar o momento em que o país decide. A primeira volta não é um prólogo: é o momento que determina quem entra na decisão final. E é precisamente aí que o campo da esquerda e do centro-esquerda enfrenta hoje uma escolha com peso histórico.
A dispersão do voto progressista não reforça causas nem amplia vozes. Pelo contrário, retira-as do centro do debate e da decisão quando ele se torna decisivo. Sem um candidato progressista na segunda volta, o país fica reduzido a uma escolha entre projetos que partilham uma visão semelhante sobre o papel do Estado, dos direitos e da Constituição. Não há equilíbrio, não há contrapoder, não há verdadeira representação plural.
É por isso que o voto útil deve ser assumido com frontalidade. Não como rendição ideológica, mas como um ato de lucidez política. Votar útil é garantir que as convicções contam, porque só contam se estiverem presentes na decisão final. Hoje, o único candidato com condições reais para levar o campo progressista à segunda volta é António José Seguro.
Seguro representa uma presidência que conhece o sistema por dentro, que respeita a Constituição e que entende o papel do Presidente como guardião dos equilíbrios democráticos — não como agitador permanente, representante de interesses instalados ou aprendiz em funções. A sua experiência política, nacional e europeia, o seu perfil ético, dão-lhe a solidez necessária para enfrentar tempos de instabilidade, defender o Estado Social e exigir responsabilidade a quem governa. É o candidato que pode garantir que a esquerda democrática não fique fora do jogo.
O risco de não o fazer é maior do que muitos querem admitir. A direita e a extrema-direita têm dado sinais claros de que encaram a Constituição como um obstáculo e não como uma garantia. O pacote laboral, a lei dos estrangeiros e a lei da nacionalidade podem ter sido apenas a ponta do iceberg de uma agenda mais profunda, que visa reconfigurar direitos, enfraquecer proteções sociais e abrir caminho a uma revisão constitucional desequilibrada, imposta por uma direita hegemónica sem contraponto democrático eficaz. Esta visão política domina hoje a maioria das freguesias, dos municípios, os governos nos Açores e na Madeira, tem 2/3 do parlamento e o governo, faz sentido o controlo absoluto com a presidência da República?
Os sinais de destempero sucedem-se, sem pingo de noção ou vergonha. André Ventura, do alto da verve populista, exige transparência no financiamento das candidaturas presidenciais enquanto lidera um partido que, desde 2022, não cumpre a lei ao não entregar a lista de ações e meios de propaganda política a que está legalmente obrigado. Bem prega Frei Tomás Ventura: olha para o que eu digo, não para o que eu faço. A transparência não pode ser um slogan seletivo; é um dever democrático.
A escolha na primeira volta é, portanto, estratégica. Não se trata de apagar diferenças, mas de criar as condições para ter na presidência quem pense e faça diferente do que temos.
Quando a esquerda se divide na primeira volta, quem ganha não são as causas — é quem já tem o poder e quer consolidá-lo. Votar útil é votar num democrata, humanista e progressista para que o país tenha equilíbrio, exigência e foco no cumprimento da constituição como base de resposta aos problemas e desafios dos portugueses e do país. Primeiro garantir presença na segunda volta. Depois, discutir tudo o resto, com voz e capacidade de ação para que conte. Só Seguro pode assegurar isso, o resto é mera gestão dos condomínios.
António Galamba é apoiante da candidatura de António José Seguro