A falta de Cristiano Ronaldo na derradeira convocatória da Federação Portuguesa de Futebol, por causa de uma ‘pequena lesão’ –...
A falta de Cristiano Ronaldo na derradeira convocatória da Federação Portuguesa de Futebol, por causa de uma ‘pequena lesão’ – a 28.ª da carreira – adensa o mistério sobre o final do seu percurso desportivo e em particular do seu adeus à Seleção. Este último acontecerá dentro de menos de quatro meses, terminado que esteja o Mundial de futebol? É que disso estão dependentes outras decisões, a começar pela escolha do novo selecionador nacional.
Como se calcula, Roberto Martínez já não seria o responsável pela equipa das quinas se não houvesse conquistado a Liga das Nações. Perante esse êxito, a fúria reformista de Pedro Proença – leia-se a obsessão de eliminar tudo o que tenha ainda a marca de Fernando Gomes – foi forçada a conter-se e o espanhol irá cumprir o contrato até ao fim… do Mundial.
Mas a partida anunciada de Martínez não tem apenas a ver com a vontade do líder da FPF. Com o prestígio acumulado nas seleções da Bélgica e de Portugal, ao treinador, que vai deixar no nosso país um perfume de elegância e de respeito – a forma como aprendeu o Português ou a cantar o Hino Nacional falam por si – não escasseiam propostas e projetos aliciantes para dar continuidade à sua carreira. Uma opção e até um compromisso poderão mesmo já ter sido tomados por Martínez, pelo que ainda que Portugal viesse a ganhar o Mundial – ou precisamente por isso – Proença ficaria a falar sozinho.
Aliás, o presidente da FPF há muito tem em carteira os nomes dos sucessores de Martínez, que não poderão ir muito além de Jorge Jesus, José Mourinho e Sérgio Conceição, uma vez que Abel Ferreira ou até Leonardo Jardim parecem de ‘pedra e cal’ no Brasil, onde têm contratos leoninos – qualquer coisa como 5 a 6 milhões de euros/ano, livres de impostos. A solução do problema não será fácil e é aí que entra o inevitável Cristiano Ronaldo, ele próprio. Vejamos como.
Partamos do princípio que o Mundial corre bem a CR7 – chegada às meias-finais, golos marcados, condição física recuperada – e que ele decide jogar ainda a Liga das Nações, com partidas marcadas já para daqui a seis meses. Nesse caso, Jorge Jesus seria o preferido – a sua relação com Cristiano é perfeita – ainda que perdendo muito, muitíssimo dinheiro: aufere 12 milhões de euros no Al-Nassr. Só que em Riade não tem a cabeça de garoupa que come em Lisboa, ali para a Rua das Portas de Santo Antão…
Mas se o craque madeirense resolver deixar de facto a Seleção em julho, ficará anulado o eventual choque de egos com José Mourinho, que pode assim rescindir com o Benfica e rumar à Cidade do Futebol. O negócio estará até ‘nos livros’ se os encarnados falharem um dos dois primeiros lugares na Liga, o acesso à Champions e a ‘tonelada’ de milhões de euros que a prova proporciona. Pela sua parte, Cristiano cumprirá mais uma época na Arábia Saudita, para alcançar os mil golos e ser campeão – se não o conseguir já na presente época – e imporá seguramente a continuidade de Jorge Jesus no Al-Nassr, a troco de mais 12 milhões. A vida custa.
Neste quadro, quais serão então, as possibilidades de Sérgio Conceição? Serão algumas, pois se Jorge Jesus pode continuar ‘preso’ na Arábia com Cristiano, Mourinho corre o ‘risco’ de ser campeão na Luz, ou andar lá perto, e ver o seu contrato com o Benfica alargado e… melhorado. Afinal, o que são 3 milhões de euros anuais para aquele que foi um dia considerado o melhor treinador do Mundo? E pelo seu lado, Conceição não tem sido feliz como profissional desde a saída do FC Porto e o clube cuja equipa técnica lidera na Arábia, o Al-Ittihad, segue em sexto lugar no campeonato, perdeu Benzema e baqueou em jogos importantes. Como os sauditas não têm fama de ser muito pacientes, Sérgio parece ser, dos três principais candidatos, o que terá maior disponibilidade dentro de dois ou três meses e a sua indicação para selecionador não implicaria o derrube de tantos obstáculos como as outras duas.
Mas Sérgio Conceição tem um problema, esse sim de difícil solução: o seu temperamento irascível, que não terá muitos admiradores para as bandas de Caxias. Haveria mesmo quem estivesse disposto a comprar bilhetes para aquele inevitável grande momento em que o homem forte da Federação desatasse aos gritos – como é sua fama e parece que também seu proveito – com o novo selecionador. A verdade é que estaremos empatados nesse particular: é que Proença não terá melhor sorte nem com Jesus, nem com Mourinho. Com qualquer deles, terá de bater sempre a bolinha baixa. A coisa promete.