Escrever sobre António José Seguro nesta campanha não é tarefa fácil, quanto mais não seja porque é difícil escrever sobre...
Escrever sobre António José Seguro nesta campanha não é tarefa fácil, quanto mais não seja porque é difícil escrever sobre quem apostou numa estratégia onde o que sobressaiu foi um extremo cuidado em passar ao lado dos temas e das questões que importava debater e saber a opinião de cada um dos candidatos, ao ponto de escapar de dar uma opinião concreta sobre o que fosse, tudo só e apenas para não cometer o ‘pecado’ de se comprometer.
Não é segredo para ninguém que Seguro não possui aquilo a que hoje se chama densidade. Sobra-lhe em aparente simpatia o que lhe falta em consistência – é ‘leve’, sensaborão, do tipo que ‘não aquece, nem arrefece’, incapaz de despertar um leve pingo de emoção em quem quer que seja. No fundo, Seguro, a sua imagem, a pose, o discurso, tudo é ‘redondo’, não tem uma aresta que seja.
Talvez por isso mesmo, a estratégia de Seguro assentou em querer mostrar apenas que a sua grande qualidade, em termos comparativos com quem disputa com ele estas presidenciais, é ser um pouco melhor do que os outros – o que, tendo em conta o panorama que nos é apresentado para o próximo domingo, não é propriamente um grande trunfo.
Aquele seu ar atilado, o discurso velho, estafado, a fazer lembrar as romagens do 5 de Outubro, a incapacidade que tem em ‘passar’ uma única ideia interessante, permitiu-lhe, no entanto, sem mexer uma palha, e sem que ninguém desse grande coisa pela sua candidatura, ir amealhando o suficiente para que, a três dias das eleições, seja dado como certo na segunda volta.
Reconheça-se, no entanto, a Seguro a virtude da paciência. Primeiro aguentou, calado e quieto, os dez anos de esconjuramento a que foi votado dentro do seu partido; a seguir, quando as curvas do destino levaram para longe quem, sem cerimónia, o tinha empurrado para a berma da estrada, foi-se levantando como quem não quer a coisa, fazendo, pouco a pouco, o seu caminho; e finalmente, já na prática candidato, aguentou firme e aparentemente imperturbável todas as muitas tentativas que surgiram no seu próprio partido, para que a área socialista encontrasse um protagonista para a corrida a Belém que não ele.
Sem chama ou rasgo, a verdade é que ao dia de hoje Seguro está bem posicionado para passar à segunda volta, e até para disputá-la com algum aparente favoritismo. Fazendo as contas, basta-lhe que, na hora do voto, muitos daqueles seus camaradas de partido que a partir de certa altura receberam a necessária ‘carta de alforria’ e começaram a surgir ao seu lado, não se enganem e coloquem a cruz no quadrado que de facto corresponde a Seguro – e não noutro. Situação essa que, conhecendo o PS, a sua história, e os muitos desencontros que sempre por lá existiram, é algo que não seria a primeira vez que sucederia. Para bom entendedor…