Começo sempre por uma coisa pequena, porque as grandes cansam-me. Por exemplo: o calendário decidiu, outra vez, que para a...
Começo sempre por uma coisa pequena, porque as grandes cansam-me. Por exemplo: o calendário decidiu, outra vez, que para a semana é “novo”. Novo como um sofá de sala de espera, com plástico ainda colado e a mesma tristeza por baixo. As pessoas acreditam. É comovente. Partem dentes com a fava das presidenciais, brindam às sondagens como se fossem meteorologia fiável, e avançam para Janeiro com a fé mal lavada de quem acha que a Terra se reinicia ao som de um estoiro.
Penso nisto enquanto observo a preparação ritual do optimismo. A passagem de ano é uma missa laica onde ninguém sabe bem a que santo se dirige, mas todos ajoelham. Há uva-passa, Asti Gancia e desejos ditos para dentro, como pecados envergonhados. Desejos libidinosos, profanos, higienizados pela superstição do calendário. Não há base científica, climatérica ou astronómica para nada disto, mas quem sou eu para estragar o sonho? A sociedade enganada dorme melhor. E eu tenho inveja de quem dorme.
Pergunto-me se o problema não é meu. Talvez eu seja incapaz de acreditar em datas como quem acredita em promessas eleitorais: com a devoção exacta necessária para ficar desapontado depois. Sou uma criatura com demasiadas definições internas e nenhum botão “reiniciar”. Um electrodoméstico ansioso.
Para ajudar, proponho doze desejos de Ano Novo para 2026, todos perfeitamente realistas, como manda a tradição:
(E, caro leitor, se acha isto excessivo, recorde-se de que também acredita que Fevereiro muda alguma coisa.)
No fim, alguém abrirá uma garrafa, outro fechará os olhos, e o mundo continuará exactamente no mesmo sítio, com a mesma cara cansada. Levantarei o copo por educação. O calendário sorrirá. E amanhã, com sorte, voltarei a duvidar de tudo desde o princípio.