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  • “Trump nem saberá onde fica o Irão”, Miguel Sousa Tavares
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Carlos Reis

O levantamento popular que por estes dias atravessa o Irão não é um mero sobressalto conjuntural.<span class="Apple-converted-space"> </span> É o grito de...

O levantamento popular que por estes dias atravessa o Irão não é um mero sobressalto conjuntural. 

É o grito de um povo, reprimido por décadas de opressão exercida por um regime teocrático entrincheirado e cruel, que governa pelo medo, pela violência, e pelo aviltamento sistemático da dignidade humana. 

Um regime que durante 47 anos arruinou uma antiga e florescente nação ficou reduzida a foco da desestabilização do Médio Oriente. 

Um regime que, com a excepção do petróleo e dos pistachios, pouco mais exporta do que a sua rede de proxy’s e agentes do terrorismo.

Um regime ao serviço do mal, inimigo ajuramentado de todos os esforços de paz arduamente tentados na região, entre os povos de Abraão. 

Este regime, que justifica o seu poder por se reclamar de divino, assenta assim na perpetuação da crueldade como método e no terror como instrumento. 

Nesta ditadura teocrática em que a autoridade do Líder Supremo dispensa o consentimento do povo, o tempo foi acumulando gerações inteiras marcadas por sucessivas camadas de frustrações. 

Não deixa por isso de ser assombrosa a coragem das mulheres iranianas, que, por estes dias, chegou aos picos da heroicidade, enfrentando no seu país o espectro das prisões arbitrárias, da tortura, e das execuções públicas, com o simples desvelar dos seus cabelos. 

E enfrentando tudo isto, sem outro poder que não o da sua dignidade. E, denuncie-se, sem qualquer auxílio do poder mediático internacional, mais uma vez surdo, mudo e atrasado, como quase sempre, quando se depara perante qualquer centelha de irrupção de revolta, em cenários que toma invariavelmente por inamovíveis. 

Cairá esta ditadura? Ainda não sabemos. 

Mas notável já é que estes dias tenham acontecido. E que estes dias tenham despontado pela revolta das mulheres contra a sua submissão.

Porque no centro desta revolta estão mesmo elas. Não estão as potências, não está o “inimigo sionista”, não estamos nós, europeus, não estão as feministas ocidentais, não estão flotilhas, nem está a esquerda pacifista internacional. 

Estão apenas as mulheres persas. As mulheres que recusam continuar a ser corpos tutelados pelo Estado, símbolos de uma moral imposta à força, vidas confinadas a um estatuto de menoridade cívica. 

Ao retirarem o véu, ao ocuparem o espaço público, ao enfrentarem a repressão, estas mulheres não lutam apenas pelos seus direitos. 

Estão a erguer um manifesto vivo, exigindo aquilo que é elementar e que é direito natural dado por Deus em qualquer país, em qualquer lugar: liberdade, justiça e futuro.

Perante esta coragem o silêncio da esquerda radical ocidental tornou-se insuportavelmente nítido. 

Tão empenhada num estafado anti-ocidentalismo e tão consumida pelo seu ódio obsessivo a Israel, esta esquerda escolhe fechar os olhos.

Denuncia, com razão ou sem ela, as falhas das democracias liberais, ergue flotilhas de indignação, mas cala-se quando um regime teocrático esmaga mulheres em nome de Deus. 

Esta hipocrisia não é neutra: é uma forma de cumplicidade.

Porque defender a liberdade não pode ser um exercício seletivo. A luta das mulheres iranianas interpela-nos a todos. Exige solidariedade clara, sem relativismos culturais nem cálculos ideológicos. 

Porque não há causa progressista possível quando se abandona quem arrisca a vida para ser livre.

Cada grito de liberdade no Irão é hoje um espelho da hipocrisia moral daqueles que, por aqui, só não se calam quando o tema é a Palestina.