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O levantamento popular que por estes dias atravessa o Irão não é um mero sobressalto conjuntural.
É o grito de um povo, reprimido por décadas de opressão exercida por um regime teocrático entrincheirado e cruel, que governa pelo medo, pela violência, e pelo aviltamento sistemático da dignidade humana.
Um regime que durante 47 anos arruinou uma antiga e florescente nação ficou reduzida a foco da desestabilização do Médio Oriente.
Um regime que, com a excepção do petróleo e dos pistachios, pouco mais exporta do que a sua rede de proxy’s e agentes do terrorismo.
Um regime ao serviço do mal, inimigo ajuramentado de todos os esforços de paz arduamente tentados na região, entre os povos de Abraão.
Este regime, que justifica o seu poder por se reclamar de divino, assenta assim na perpetuação da crueldade como método e no terror como instrumento.
Nesta ditadura teocrática em que a autoridade do Líder Supremo dispensa o consentimento do povo, o tempo foi acumulando gerações inteiras marcadas por sucessivas camadas de frustrações.
Não deixa por isso de ser assombrosa a coragem das mulheres iranianas, que, por estes dias, chegou aos picos da heroicidade, enfrentando no seu país o espectro das prisões arbitrárias, da tortura, e das execuções públicas, com o simples desvelar dos seus cabelos.
E enfrentando tudo isto, sem outro poder que não o da sua dignidade. E, denuncie-se, sem qualquer auxílio do poder mediático internacional, mais uma vez surdo, mudo e atrasado, como quase sempre, quando se depara perante qualquer centelha de irrupção de revolta, em cenários que toma invariavelmente por inamovíveis.
Cairá esta ditadura? Ainda não sabemos.
Mas notável já é que estes dias tenham acontecido. E que estes dias tenham despontado pela revolta das mulheres contra a sua submissão.
Porque no centro desta revolta estão mesmo elas. Não estão as potências, não está o “inimigo sionista”, não estamos nós, europeus, não estão as feministas ocidentais, não estão flotilhas, nem está a esquerda pacifista internacional.
Estão apenas as mulheres persas. As mulheres que recusam continuar a ser corpos tutelados pelo Estado, símbolos de uma moral imposta à força, vidas confinadas a um estatuto de menoridade cívica.
Ao retirarem o véu, ao ocuparem o espaço público, ao enfrentarem a repressão, estas mulheres não lutam apenas pelos seus direitos.
Estão a erguer um manifesto vivo, exigindo aquilo que é elementar e que é direito natural dado por Deus em qualquer país, em qualquer lugar: liberdade, justiça e futuro.
Perante esta coragem o silêncio da esquerda radical ocidental tornou-se insuportavelmente nítido.
Tão empenhada num estafado anti-ocidentalismo e tão consumida pelo seu ódio obsessivo a Israel, esta esquerda escolhe fechar os olhos.
Denuncia, com razão ou sem ela, as falhas das democracias liberais, ergue flotilhas de indignação, mas cala-se quando um regime teocrático esmaga mulheres em nome de Deus.
Esta hipocrisia não é neutra: é uma forma de cumplicidade.
Porque defender a liberdade não pode ser um exercício seletivo. A luta das mulheres iranianas interpela-nos a todos. Exige solidariedade clara, sem relativismos culturais nem cálculos ideológicos.
Porque não há causa progressista possível quando se abandona quem arrisca a vida para ser livre.
Cada grito de liberdade no Irão é hoje um espelho da hipocrisia moral daqueles que, por aqui, só não se calam quando o tema é a Palestina.