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  • “O Mundo não espera por nós”, António José Seguro
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Mário Carneiro

Na quinta-feira à noite, no Coliseu dos Recreios, Toy subiu ao palco dos Prémios Play para entregar um troféu e...

Na quinta-feira à noite, no Coliseu dos Recreios, Toy subiu ao palco dos Prémios Play para entregar um troféu e aproveitou o momento para dizer o que pensava sobre Netanyahu, sobre Trump e sobre a Eurovisão. A plateia, que era exactamente a plateia que estava ali para ouvir isso, aplaudiu de pé. Tornou-se viral. Toda a gente falou no assunto. E é legítimo interrogarmo-nos se o momento era aquele, se o palco era esse, se a coragem de chamar “assassino de crianças” a um chefe de Governo e chamar pior a um Chefe de Estado é maior quando se faz perante uma sala que vai certamente aplaudir.

Mas Toy é Toy. Esperar-se-ia outra coisa?

Dois dias depois, na Assembleia da República, José Pedro Aguiar-Branco discursou na sessão solene do 52.º aniversário do 25 de Abril. E fez o mesmo. Não chamou nomes a ninguém, mas o princípio foi rigorosamente idêntico: aproveitou o palco, a data e a plateia para dizer o que quis dizer, que era uma coisa completamente diferente daquilo o momento pedia.
Toy falou para os seus. Aguiar-Branco também.

A diferença é que Toy é um cantor popular e Aguiar-Branco é a segunda figura do Estado e tinha à sua frente o hemiciclo completo, os capitães de Abril nas galerias e um Presidente da República a estrear-se naquele papel. O momento pedia grandeza institucional, mas o que se ouviu foi o discurso de abertura duma espécie de congresso do Sindicato dos Políticos.

Porque foi isso, essencialmente, o que Aguiar-Branco fez. Num exercício de retórica sofisticado, construiu um argumento aparentemente autocrítico para chegar a uma conclusão corporativa: os políticos são mal pagos, as regras de incompatibilidade são excessivas, a transparência exigida é perseguição, e quem não percebe isto está a cair nas garras do populismo. Fez o mea culpa para depois se exercitar no passa culpas . Admitiu que há filhos de políticos a fazer política e jovens que nunca saíram das juventudes partidárias, e depois usou esse reconhecimento como trampolim para concluir que o problema não são eles: são as regras que os impedem de ser ainda melhores.

É o truque do advogado que cita as acusações do Ministério Público antes de as desfazer uma a uma.

O pior, porém, foi a escolha do momento. A sessão decorria exactamente uma semana depois de a Entidade das Contas e Financiamentos Políticos ter decidido não revelar os nomes dos doadores de partidos e campanhas eleitorais. O Presidente da República falou sobre isso directamente: a transparência nos donativos políticos, disse Seguro, “não é uma questão administrativa, é um compromisso com a ética.” Aguiar-Branco não disse uma palavra sobre o assunto. Preferiu falar, com alguma pormenorização doméstica, sobre o peso de ter de declarar se a mulher é rica, se o primo é pobre, se a casa tem elevador e quantas casas de banho.

Numa altura em que o país discute quem financia os partidos, o presidente do Parlamento achou que o problema da política portuguesa era o excesso de transparência.

Toy pelo menos tem a desculpa de ser quem é. Sobe ao palco, diz o que pensa, a plateia gosta, fica viral. É uma actuação. Ninguém esperava outra coisa de um cantor que foi ao Coliseu entregar um prémio de música popular e ligeira.

Aguiar-Branco foi a uma sessão solene do 25 de Abril na qualidade de Presidente do parlamento de um país democrático. Tinha ali comunistas e liberais, socialistas e capitães de Abril, o Chega e o Presidente da República de cravo na lapela. Era o momento para estar acima da refrega e não para usar a tribuna como púlpito de lobby.

Um Toy de gravata, mas a diferença é que ninguém elege o Toy para representar a democracia portuguesa.