A recente Greve Geral voltou a expor fraturas profundas na sociedade, algumas antigas, outras agravadas pelo contexto económico e político...
A recente Greve Geral voltou a expor fraturas profundas na sociedade, algumas antigas, outras agravadas pelo contexto económico e político atual.
Por um lado, esta Greve Geral corresponde a uma tradição enraizada da nossa Democracia, fruto da influência conservadora e retrógrada, embora a esvair-se ao longo dos anos, do Partido Comunista no mundo laboral.
Basta referir que das 11 greves gerais realizadas na nossa Democracia, 9 delas foram convocadas contra governos liderados pelo PSD. Aliás, com excepção dos breves governos liderados por Francisco Sá Carneiro e Pedro Santana Lopes, todos os primeiros ministros do PSD tiveram de enfrentar greves gerais (Francisco Pinto Balsemão, Aníbal Cavaco Silva, José Manuel Durão Barroso e Pedro Passos Coelho).
Em contraste, nos oito anos de costismo socialista não houve uma única Greve Geral.
Uma parcialidade evidente de atuação das centrais sindicais.
Mas há uma outra fractura na sociedade portuguesa, mais nefasta do que a fractura esquerda/direita:
No setor público a adesão foi amplamente mediática, e impactante ao nível da impossibilitação prática de muitos, que querendo trabalhar, não o puderam fazer, por não terem forma de se deslocar para o trabalho.
A este respeito importa denunciar que a politização recorrente da actividade das empresas de transportes constitui, cada vez mais, um obstáculo para a liberdade dos seus utentes, na maioria trabalhadores.
Nenhum país pode deixar-se capturar por qualquer força organizada de bloqueio. Mas entre nós, a persistência deste problema no nosso país é também um sintoma de ineficiência e de injustiça real no funcionamento da nossa democracia.
Já no setor privado a participação na Greve Geral foi mais difusa e quase irrelevante em termos de alcance económico.
O país, grosso modo, funcionou.
Esta assimetria entre público e privado levanta assim uma questão central: pode uma greve geral cumprir plenamente o seu suposto papel quando as realidades são tão distintas e os interesses nem sempre são convergentes?
Nesta greve tivemos mesmo o paradoxo de a clara maioria dos grevistas serem aqueles a quem a reforma laboral contestada se não irá aplicar.
Acresce a isto uma politização excessiva de um debate que, paradoxalmente, ainda não teve início formal no espaço próprio da Concertação Social.
Antes mesmo de qualquer análise aprofundada em sede de concertação social, posições rígidas foram cristalizadas no espaço público, transformando um tema complexo num confronto essencialmente partidário, onde os partidos de esquerda querem recuperar agora nos piquetes tudo o que perderam nas urnas de voto.
Mas isto prejudica todos.
Este ruído político não só dificulta soluções equilibradas como fragiliza os próprios mecanismos de diálogo social, que deveriam ser o primeiro instrumento para discutir reformas estruturais, salários e condições de trabalho.
Tudo isto ocorre num momento particularmente exigente para as economias europeias. A desaceleração do crescimento, a pressão inflacionista persistente, o envelhecimento demográfico e a necessidade imperiosa das transições energética e digital colocam desafios sem precedentes a todos os países europeus.
Responder a estes problemas exige coesão social, confiança institucional e capacidade de compromisso.
As greves são direitos e instrumentos legítimos de reivindicação, mas perdem eficácia quando se tornam substitutos do diálogo ou quando aprofundam divisões já existentes.
Num contexto europeu particularmente frágil, mais do que slogans ou trincheiras políticas, impõe-se um debate sério, informado e inclusivo sobre o futuro do trabalho e da economia.
E não serão greves parciais, ditas gerais, que resolverão o desafio do crescimento económico, dos salários e rendimentos.