Mandam as ‘regras’ que um dos objetivos de um candidato numa campanha é que, mesmo perdendo, saia dessa mesma campanha...
Mandam as ‘regras’ que um dos objetivos de um candidato numa campanha é que, mesmo perdendo, saia dessa mesma campanha melhor do que entrou. É o caso de André Ventura, primeiro colocado na maioria das sondagens divulgadas até agora, e cuja campanha tem mostrado uma inteligência e um posicionamento estratégico que falta a muitas das outras.
Falemos das coisas como elas são: Ventura é candidato a Presidente da República por ‘culpa’ de João Cotrim Figueiredo. Tivesse o candidato dos liberais preferido continuar pelo Parlamento Europeu, e Ventura teria ficado confortavelmente sentado, ele e os restantes 59 deputados do Chega, na Assembleia da República, a gozar do seu estatuto de líder da oposição, e quando muito a observar com cautela a prestação de alguma figura secundária que escolhesse apenas e só para marcar presença numa pugna que a ele, e ao seu partido, pouco diria. Até porque numa segunda volta, o perfil seráfico, austero, de cortar a direito’, um pouco ‘à chega’, do almirante, com aquela pose e estilo de quem quer pôr tudo na ordem, permitiria a Ventura cavalgar aquilo que se antevia como uma mais do que previsível vitória de Gouveia e Melo.
Mas perante o surgimento da candidatura de Cotrim, que o obrigou a entrar na competição direta, Ventura rapidamente conseguiu refazer a sua estratégia: primeiro, insistiu naquele discurso habitual, agressivo, belicoso, e de confronto, ‘blindando’ aparentemente o seu eleitorado, impedindo as fugas para outros candidatos à direita (a sua prestação no debate que o opôs a Catarina Martins é um exemplo disso mesmo) – o que, dada a atomização existente, lhe terá assegurado, aparentemente, a passagem à segunda volta; depois, numa segunda fase, e já moderando o tom e o estilo, partiu em busca de franjas do eleitorado que podem vir a constituir uma espécie de ‘almofada’ numa disputa que no próximo domingo se antevê a quatro. Mais: mesmo sabendo que dificilmente ganhará a qualquer dos seus possíveis adversários numa segunda volta, Ventura precisa, até para o seu futuro político, reduzir o seu elevado nível de rejeição, que as sondagens estimam em 70 por cento – e essa moderação mostrada nas últimas duas semanas poderá contribuir de facto para diminuir esse mesmo índice.
É isso que lhe vai permitir, mais do que ganhar qualquer eleição presidencial, afirmar a liderança da oposição, que formalmente já lhe pertence, amealhar o maior número de votos possível numa mais do que provável segunda volta, e partir definitivamente para a conquista do poder, afirmando-se de facto como alternativa ao próprio Luís Montenegro, que nas últimas legislativas recolheu – anote-se… – 2 milhões de votos.