Vladimir Putin, de 73 anos, comentou esta quinta-feira, dia 22, a insistência de Donald Trump (79) na aquisição da Gronelândia, avançando mesmo com um valor para o território autónomo dinamarquês, apesar da oposição reiterada de Copenhaga.
Durante uma reunião do Conselho de Segurança da Rússia, Putin estabeleceu um paralelo histórico com a compra do Alasca pelos Estados Unidos, em 1867, sugerindo que, por comparação, a Gronelândia poderia ter um valor situado entre 200 e 250 milhões de dólares. O líder do Kremlin referiu que a ilha é “ligeiramente maior” do que a península do Alasca, vendida pelo Império Russo aos EUA, no século XIX.
Putin acrescentou, no entanto, que esse montante teria hoje de ser revisto em função do valor do ouro à época, admitindo que, numa atualização económica, o preço poderia aproximar-se de mil milhões de dólares: “Acredito que os Estados Unidos poderiam chegar a esse valor.”
O chefe de Estado da Rússia recordou ainda que Washington adquiriu o Alasca ao czar Alexandre II por 7.2 milhões de dólares, o que correspondeu a cerca de 4.73 dólares por quilómetro quadrado, um valor que, segundo Putin, equivaleria atualmente a cerca de 158 milhões de dólares.
Na mesma intervenção, o presidente russo acusou a Dinamarca de ter tratado historicamente a Gronelândia como uma colónia, afirmando que o fez de forma “dura” e até “cruel”. Ainda assim, sublinhou que a questão não envolve diretamente a Rússia e manifestou a convicção de que Washington e Copenhaga acabarão por chegar a um entendimento.
As declarações de Putin surgem no mesmo dia em que Donald Trump, presente no Fórum Económico Mundial, em Davos, confessou que os Estados Unidos estão a trabalhar com a NATO num eventual acordo relacionado com a Gronelândia, descrevendo-o como “verdadeiramente fantástico” e afastando, pela primeira vez, a possibilidade de recurso à força.
Putin aproveitou também para recordar que, à época da compra do Alasca, a imprensa norte-americana classificou o negócio como uma “loucura”: “Hoje, essa decisão é vista de forma bem diferente nos Estados Unidos, tal como o legado do então presidente Andrew Johnson.”
A posição de Trump tem gerado reações contraditórias no plano internacional. Enquanto alguns analistas consideram a iniciativa histórica, outros alertam para o risco de fragilizar a União Europeia e a NATO, desviando ainda atenções do conflito na Ucrânia, iniciado com a invasão russa em 2022.
Comentadores sublinham que uma eventual aquisição da Gronelândia, um território com autonomia política, localização estratégica no Ártico e abundantes recursos minerais, levanta preocupações económicas e de segurança para Moscovo, num contexto em que a Rússia procura reforçar a sua influência na região ártica.
Nos últimos anos, Moscovo tem intensificado a sua presença militar no Ártico, onde se encontra baseada a Frota do Norte e onde, durante o período soviético, foram realizados testes nucleares. O jornal governamental Rossiyskaya Gazeta chegou mesmo a comparar a atual conjuntura a acontecimentos “de escala planetária”, como a abolição da escravatura nos Estados Unidos ou as conquistas territoriais das Guerras Napoleónicas.
Já o ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Serguei Lavrov, afirmou numa conferência de imprensa recente que o controlo dinamarquês sobre a Gronelândia representa um resquício do passado colonial: “Em termos históricos, a Gronelândia não é parte integrante da Dinamarca.”
Lavrov traçou, por fim, um paralelo entre a ambição de Trump relativamente à Gronelândia e a anexação da Crimeia pela Rússia, em 2014, um ato considerado ilegal e não reconhecido pela maioria da comunidade internacional. “A Crimeia não é menos importante para a segurança da Federação Russa do que a Gronelândia é para os Estados Unidos.”