Devin Gerald Nunes, de 52 anos, o ‘braço-direito’ de Donald Trump que, em outubro passado, reuniu secretamente em Cascais com o ministro António Leitão Amaro, e horas mais tarde, em Aveiro, com o seu cunhado Ricardo Leitão Machado, um controverso empresário que acumula polémicas em Angola e também em Portugal, é alguém que, como o apelido indica, tem fortes ligações a Portugal.
Lusodescendente, filho de açorianos, que emigraram para a Califórnia, Nunes, que foi membro da Câmara dos Representantes ao longo de 20 anos, sempre cultivou uma especial relação com nosso país, que visita com alguma assiduidade, e onde mantém algumas relações próximas – casos por exemplo dos empresários Marco Galinha e Mário Ferreira, mas também de gente ligada à política, como Paulo Portas, ou mesmo Pedro Pessanha, o deputado do Chega.
Isto já para não falar das relações estreitas que mantem com figuras gradas da nossa comunidade de informações, sendo que há muito mantem contatos periódicos com os altos responsáveis do SIS e de outras estruturas do setor, com quem se encontra cada vez que viaja até Portugal, como ainda foi o caso em outubro passado.
Republicano, amigo de longa data de Donald Trump, de quem é também um dos ‘homens de mão’, está à frente da Truth, a controversa rede social criada pelo presidente norte-americano em 2022. Há um ano, quando Trump chegou pela segunda vez à Casa Branca, Nunes foi um dos nomes que circularam com insistência para diretor da CIA, mas o seu amigo Donald preferiu indicá-lo para liderar o poderoso Conselho Consultivo dos Serviços Secretos da Casa Branca, uma das estruturas que mais acesso tem à informação classificada nos Estados Unidos.

A relação com Trump ter-se-á fortalecido no período em que, durante o primeiro mandato do republicano, Devin liderou a poderosa Comissão dos Serviços Secretos da Câmara dos Representantes, onde desempenhou um papel considerado “decisivo” a impedir a destituição do presidente norte-americano, então alvo de um processo de impeachment.
Aliás, mais tarde, não escondendo a sua gratidão, Trump atribuiu-lhe a Medalha da Liberdade, a mais alta condecoração civil norte-americana, tendo na altura se referido a Nunes como “um talento incomparável, dotado de uma integridade inatacável e uma determinação inabalável”.
O vinho e o futebol, as duas paixões de Devin Nunes
Apesar de não falar uma única palavra de português, Devin Nunes tem duas paixões bem portuguesas – o vinho e o futebol. Produtor de vinhos na Califórnia – com vinhedos que se estendem do topo das montanhas de Paso Robles aos vales do Pacífico, orgulha-se dos vinhos produzidos com castas e segundo as tradições portuguesas.

O negócio do vinho obriga-o a viajar com frequência a Portugal, onde também, sempre que pode, não falha um jogo da seleção portuguesa. Ainda recentemente, durante a sua última viagem a Portugal, assistiu ao Portugal-Hungria que se realizou em Lisboa, e onde, para além de se encontrar com o primeiro-ministro Viktor Òrban, se deixou fotografar ao lado de Galinha e de John Arrigo, o embaixador dos Estados Unidos em Lisboa.
Devin Nunes sempre fez questão de incutir às suas três filhas – Margaret, Evelyn e Julia – uma proximidade com a terra de seus avós, viajando sempre que pode a Portugal, e particularmente aos Açores, na companhia das três filhas, fruto do seu casamento com Elisabeth, ocorrido em 2003.
A par dos Açores, o Douro é um dos locais que visita com mais frequência, quando vem a Portugal, hospedando-se quase sempre no Six Senses, o mais célebre e luxuoso hotel da região, aproveitando essas estadas para contatar com alguns enólogos portugueses, alguns deles que lhe foram apresentados por Mário Ferreira, com quem se gosta de aconselhar.
Aliás, foi numa dessas viagens ao Douro, que ocorreu, a meio-caminho, mais precisamente na Mealhada, o seu encontro com Ricardo Machado, o cunhado Leitão Amaro que está a braços com uma acusação de burla em Angola, e que tentou entregar a Nunes dossiês alegadamente comprometedores para dois ministros angolanos – Edeltrudes da Costa, considerado ‘a sombra’ do presidente João Lourenço, e Baptista Borges, o homem que comanda a pasta da Energia no governo daquele país.
A inseparável companhia de Nuno Manalvo
Quem normalmente não larga Devin Nunes nas suas visitas ao nosso país é Nuno Manalvo, que é assim uma espécie de assistente do ‘braço-direito’ de Trump em terras lusas. Conheceram-se em 2004, quando Manalvo, na altura assessor de Mota Amaral, na sua qualidade presidente da Assembleia da República, representou Portugal nas cerimónias fúnebres do antigo presidente Ronald Reagan – e mais tarde cruzaram-se na Associação de Amizade Portugal/Estados Unidos, de que ambos fazem parte.

Atualmente colaborador de Marco Galinha, com quem trabalha no grupo Bel, onde é avençado, Manalvo tem um percurso profissional e político, tão singular, quanto discreto. Começou como colaborador de Durão Barroso, de quem foi assistente na Universidade Lusíada, tendo-o acompanhado durante a ‘volta a Portugal’ que o então líder do PSD promoveu no ano de 2000, e onde foi conquistando alguma proximidade, muito graças aos seus dotes de massagista, que, conforme recorda ao 24Horas um antigo funcionário da sede nacional dos social-democratas, eram “essenciais para o bem-estar de Durão, que já na altura padecia de problemas de coluna”.
Maçon, foi membro da controversa loja Mozart, onde, em 2008, foi iniciado o atual primeiro-ministro Luís Montenegro, e por onde passaram também nomes como Vasco Rato, que chegou a ser presidente da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD), Nuno Vasconcellos, os espiões Jorge Silva Carvalho e João Alfaro, o produtor Álvaro Covões, e o antigo presidente da CIP, António Saraiva, com quem trabalhou e mantém algumas ligações empresariais. Aliás, o particular ‘apetite’ que desde sempre Manalvo mostrou pelos negócios, não perdendo uma única oportunidade para pôr o pé em tudo o que lhe cheire a dinheiro, já lhe valeu mesmo a divertida alcunha de ‘mamalvo’…

Nuno Manalvo dificilmente esconde a autêntica devoção que tem pelo seu ‘amigo americano’. Basta seguir a sua página na rede social Truth para atestarmos isso mesmo, o fervor com que Manalvo trata publicamente Devin: post sim, post não, é certo e sabido que manalvo se desfaz em elogios e encómios ao amigo, isto já para não falar da fotografia que escolheu para o seu perfil naquela rede – nada mais que uma imagem de uma adega. Será a do seu amigo Devin? Apostamos que sim…