O cenário político brasileiro sofreu um abalo sísmico. Um grupo de 35 senadores, liderado por Alessandro Vieira (MDB-SE), registou formalmente o pedido de criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar a conduta de dois magistrados do Supremo Tribunal Federal (STF): Alexandre de Moraes e Dias Toffoli. O número de subscrições superou com folga o mínimo de 27 assinaturas exigido pela Constituição, sinalizando uma erosão na base de apoio aos ministros no seio da Câmara Alta.

O gatilho para a ofensiva parlamentar reside nos dados extraídos dos sete telemóveis apreendidos a Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master, no âmbito da ‘CPMI do INSS’. De acordo com informações, primeiramente reveladas pela TV Globo e depois portais Metrópoles e CNN Brasil, a perícia da Polícia Federal identificou o número pessoal de Alexandre de Moraes na agenda de contactos de Vorcaro.
Mais grave ainda, segundo o requerimento da CPI, são os registos de chamadas e mensagens trocadas em datas críticas. Os investigadores tentam agora determinar se houve fugas de informação ou tráfico de influência, uma vez que o banqueiro terá mantido comunicações frequentes com figuras próximas ao Supremo nas vésperas da sua primeira detenção, ocorrida em novembro, durante a ‘Operação Compliance Zero’.
A peça central da acusação foca-se na relação comercial entre a família do magistrado e o sistema financeiro. O escritório de advogados de Viviane Barci de Moraes, mulher de Alexandre de Moraes, confirmou oficialmente a existência de um contrato de prestação de serviços com o Banco Master. Segundo a nota emitida pela banca de advogados, foram produzidos 36 pareceres jurídicos para a instituição financeira entre o início de 2024 e os primeiros meses de 2026.
A defesa de Viviane Moraes assegura que a relação é estritamente profissional e técnica, sublinhando que o escritório nunca peticionou ou atuou diretamente em processos que tramitam no STF envolvendo o banco. No entanto, para os senadores que encabeçam o pedido de CPI, a admissão do contrato e o volume de pareceres realizados num curto espaço de tempo alimentam a tese de um potencial conflito de interesses, dada a posição de destaque ocupada pelo marido da advogada na mais alta corte do país.
No STF, o clima é de autodefesa e desconforto. O ministro André Mendonça já determinou a abertura de um inquérito sigiloso para apurar a origem das fugas de informação que expuseram os dados dos telemóveis de Vorcaro, alegando que a divulgação de material sob segredo de justiça visa desestabilizar as instituições e coagir os magistrados.
O destino da CPI está agora nas mãos de Davi Alcolumbre, presidente do Senado. Cabe-lhe ler o requerimento em plenário para que a comissão seja oficialmente instalada. Alcolumbre, conhecido pelo seu perfil conciliador e pela proximidade com o Judiciário, enfrenta uma pressão dupla: de um lado, a oposição e a opinião pública exigem transparência e investigação; do outro, o Palácio do Planalto e o próprio Supremo tentam travar a iniciativa para evitar uma crise institucional sem precedentes em pleno ano de 2026.
Caso avance, esta será a primeira vez na história recente do Brasil que membros do STF serão alvo de uma investigação direta pelo Poder Legislativo, num processo que pode paralisar a agenda política de Brasília e culminar em pedidos de destituição (impeachment) se forem comprovados crimes de responsabilidade.