O desfecho da quebra de sigilo bancário de Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como “Lulinha”, trouxe um alívio momentâneo para o Palácio do Planalto, mas não encerrou a crise política. De acordo com os documentos analisados pela CPMI do INSS e pela Polícia Federal, a movimentação financeira de 19,5 milhões de reais entre 2022 e 2026 não revelou, até agora, qualquer depósito ilícito ou transferência direta proveniente do esquema de fraude previdenciária que terá desviado cerca de 6,3 mil milhões de reais de reformados brasileiros.
Os dados periciais indicam que o montante milionário refere-se ao fluxo acumulado (soma de entradas e saídas) nas contas do empresário e das suas empresas, como a G4 Entretenimento e a LLF Tech. A maior fatia dos créditos — cerca de 4,4 milhões de reais — tem origem em resgates de investimentos financeiros declarados, enquanto o restante do fluxo é justificado por operações comerciais e transferências entre as suas próprias participações societárias. Para a defesa, o resultado prova que as acusações são “fruto de ficção política”.

Apesar da ausência de provas diretas nos extratos bancários, a Polícia Federal (PF) mantém o foco nos elos de proximidade. A investigação da “Operação Sem Desconto” baseia-se no depoimento de Edson Claro, ex-funcionário do lobista António Carlos Camilo Antunes (o “Careca do INSS”), que afirmou que Lulinha recebia uma “mesada” de 300 mil reais do grupo criminoso.
Os investigadores apuram agora se houve uma triangulação de valores através de terceiros. A empresária Roberta Luchsinger, amiga próxima de Fábio Luís, é peça-chave nesta linha de investigação. Dados indicam que Roberta terá recebido 1,5 milhão de reais do grupo do lobista. A suspeita de que ela pudesse atuar como “ponte” financeira ganhou força após a descoberta de que Lulinha e Roberta partilharam códigos de reserva em pelo menos seis viagens internacionais, incluindo deslocações para Lisboa. Embora o empresário justifique as viagens a Portugal como prospeção de negócios no setor da canábis medicinal, a PF intercetou mensagens que mencionam o código “filho do rapaz” em datas coincidentes com as estadias na Europa.
No plano político, o caso ganhou contornos de proteção institucional. O senador Davi Alcolumbre, presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), tem sido visto como o principal articulador da blindagem a Lulinha no Congresso. Relatos de bastidores descrevem a atuação de Alcolumbre como um “abraço de urso”: um apoio que protege o empresário de convocações imediatas para depor, mas que aumenta o desgaste de imagem do Governo Lula perante a opinião pública.
Esta movimentação política coincidiu com vitórias jurídicas importantes. O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), suspendeu temporariamente as quebras de sigilo da CPMI, alegando vícios processuais. A decisão travou o acesso aos dados de Roberta Luchsinger, gerando enorme frustração entre os membros da oposição que viam ali o caminho para ligar o dinheiro do INSS à família presidencial.
Perante o avanço das investigações conduzidas pela PF sob a tutela do ministro André Mendonça, a defesa de Fábio Luís mantém-se em posição de ataque. Os advogados reiteram que o empresário está “tranquilo” e que não existem fundamentos jurídicos para uma prisão preventiva, uma vez que não há provas de obstrução à justiça ou de crimes financeiros confirmados até à data.
“Tentar prender alguém com base em viagens e amizades, ignorando que as contas bancárias estão limpas, é uma violação do Estado de Direito”, afirmou a equipa jurídica. Contudo, a situação permanece sob alta tensão. Com Fábio Luís a residir em Espanha desde julho de 2025, qualquer novo indício de bens ocultos no exterior poderá alterar drasticamente o curso de um processo que, embora sem provas capitais até agora, continua a ser a principal sombra sobre o terceiro mandato de Lula.