Portugal apresenta um baixo desempenho em saúde, ficando abaixo da média da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) em quase todos os indicadores (saúde física, saúde mental, funcionamento social, bem-estar e saúde geral). Os aspetos mais negativos são a perceção de saúde da população e a coordenação de cuidado. Esta é a conclusão do Patient Reported Indicators Surveys (PaRIS), o maior inquérito internacional aplicado a utilizadores de serviços de saúde, divulgado esta quinta-feira, 16.
Apenas 42% dos inquiridos portugueses consideram que a saúde geral é boa, muito boa ou excelente, contra os 66% da média da OCDE. Na experiência com os cuidados de saúde, persistem “fragilidades significativas na coordenação”. Nessa dimensão, 51% dos utentes estão insatisfeitos (face aos 41% da média da OCDE) e metade dos profissionais admite não estar preparado para articular com outros profissionais de saúde de forma eficaz.
54% dos inquiridos portugueses afirmam confiar no sistema de saúde, enquanto a média da OCDE se fixa nos 62%. As vulnerabilidades persistem e afetam sobretudo os idosos, mulheres e pessoas com baixa escolaridade ou em privação económica. Este grupo de pessoas relata piores resultados em saúde e experiências no contacto com o sistema.
“Esta realidade requer políticas de inclusão, capacitação profissional e respostas diferenciadas e adaptadas para pessoas em maior vulnerabilidade”, referem os autores, em comunicado. Regista-se ainda um número crescente de doentes crónicos, pelo que é “urgente adaptar os sistemas de saúde às necessidades destas pessoas”.
Cuidados de Saúde Primários apresentam “lacunas estruturais”
Relativamente aos Cuidados de Saúde Primários (CSP), o relatório refere a fraca coordenação entre níveis de cuidados, baixa cobertura dos planos individuais de cuidados, apoio insuficiente à autogestão e canais de comunicação desatualizados.
A falta de recursos humanos também se faz sentir nos CSP, já que impede que seja o mesmo profissional a acompanhar um doente ao longo de todo o seu tratamento.
Canais de comunicação estão “desatualizados”
O recurso à tecnologia continua a ter obstáculos, persistindo “desafios de interoperabilidade, acesso remoto e integração com outros prestadores”. A articulação entre cuidados hospitalares, continuados, paliativos e de saúde mental é “frágil e incompleta”. A oferta de videoconsultas é muito limitada, o que compromete a acessibilidade, continuidade e eficiência de cuidados.
PaRIS propõe três eixos estratégicos de mudança
O estudo aponta a transformação digital como método fundamental para garantir a modernização dos canais de comunicação, além da personalização da resposta assistencial, atribuindo um gestor de cuidados a cada utente e reforçando o apoio à autogestão da doença. O reforço da confiança no sistema, que exige a medição da experiência dos utentes e um “investimento consistente” na prevenção e na literacia em saúde, é outro dos fatores apontados.
O PaRIS avaliou dez indicadores-chave, cinco relativos a resultados em saúde (saúde física, saúde mental, funcionamento social, bem-estar e saúde geral) e cinco relativos a experiência dos utentes, entre eles a confiança na gestão da própria saúde, a coordenação de cuidados e a confiança no sistema de saúde. 19 países entraram no estudo, entre eles Portugal, onde foram ouvidos 11.744 utentes com 45 anos ou mais e 80 unidades de CSP.