O Hospital Amadora-Sintra identificou ao longo da última década mais de 500 mulheres vítimas de mutilação genital feminina (MGF) e acompanhou o nascimento de mais de 240 meninas filhas dessas mulheres, um dado que levanta preocupações quanto à continuidade desta prática.
A informação foi avançada à agência Lusa pela Unidade Local de Saúde Amadora-Sintra (ULSASI), no âmbito do Dia Internacional da Tolerância Zero à Mutilação Genital Feminina, que se assinala na sexta-feira, dia 6.
De acordo com a instituição, a maioria das mulheres afetadas encontra-se em idade reprodutiva e é originária de países como Guiné-Bissau, Guiné-Conacri, Senegal, Gâmbia, Nigéria, Gana e Congo. Muitas foram submetidas à mutilação ainda durante a infância ou adolescência. Entre setembro de 2015 e dezembro de 2025, nasceram mais de 240 meninas filhas de mulheres que sofreram esta prática.
Para o grupo de trabalho dedicado à MGF no Hospital Amadora-Sintra, estes números sublinham a necessidade de reforçar a formação dos profissionais de saúde, de modo a garantir a deteção atempada e a correta sinalização dos casos, prevenindo a repetição da prática nas gerações seguintes.
Em declarações à Lusa, a diretora do Serviço de Obstetrícia da ULSASI, Ana Paula Ferreira, revelou que só nos últimos dois anos foram identificados 128 novos casos. Entre as mulheres acompanhadas encontram-se tanto residentes em Portugal há vários anos como recém-chegadas, sobretudo oriundas da Guiné.
Segundo a médica, muitas vítimas não falam espontaneamente sobre a mutilação: “Creio que algumas nem sequer têm noção de que têm uma mutilação. Só quando são confrontadas com a situação é que começam a relacionar algumas das coisas que se passam na vida delas com a mutilação, como a diminuição do prazer sexual”.
Nos casos mais graves, a especialista explicou que surgem dores durante as relações sexuais e complicações no parto, uma vez que “a última fase do trabalho de parto é muito mais complicada porque as lacerações são geralmente muito maiores do que numa mulher que tem uma vulva sem mutilação”.
Ana Paula Ferreira destacou ainda o impacto psicológico da prática, sublinhando que as mulheres que têm consciência de terem sido mutiladas “têm algum dano”, por lhes ter sido retirada uma parte do corpo sem consentimento.
A identificação dos casos acontece sobretudo durante o acompanhamento da gravidez ou no momento da admissão para o parto, incluindo situações de mulheres que chegam a Portugal já numa fase avançada da gestação.
Durante o internamento hospitalar, é feito um trabalho de sensibilização, embora condicionado pelo tempo disponível. “Em média, só temos três dias para estar com essas senhoras, o tempo entre o parto, o internamento e a alta”, explicou a diretora de obstetrícia.
Após o parto, quando a mulher se encontra mais estável, são recolhidos dados clínicos, como a idade a que ocorreu a mutilação, a perceção da própria vítima sobre o sucedido e as queixas ao longo da vida, sendo mais frequentes a dor durante o ato sexual e a redução do prazer.
“Depois tentamos perceber se elas estão abertas a não realizar essa prática nas suas filhas e ensinar os filhos”, acrescentou a médica.
Depois da alta hospitalar, as mulheres são encaminhadas para acompanhamento nas unidades locais de saúde, através de uma plataforma nacional que reúne informação sobre todas as mulheres sujeitas a MGF, bem como sobre os seus bebés e filhas.
A obstetra salientou ainda a importância de envolver os homens nas estratégias de prevenção e de alargar a sensibilização aos cuidados de saúde primários, às consultas de pediatria e ao meio escolar.
Também à Lusa, a enfermeira especialista Khatidja Amirali, integrante do grupo de trabalho do hospital, defendeu a importância de compreender o enquadramento sociocultural da MGF, sem deixar de informar sobre a legislação portuguesa, os impactos na saúde e os direitos das crianças.
“Não é fácil, choca-nos, principalmente quando percebemos que há uma intenção em continuar a prática, mas é importante não julgar para não perder a confiança da mulher perante nós”, afirmou.
A ULSASI chama ainda a atenção para períodos considerados de maior risco, como as férias escolares, altura em que algumas crianças viajam para os países de origem das famílias e podem ser sujeitas à mutilação sem o conhecimento ou consentimento materno.
Neste contexto, a articulação entre a saúde escolar e os cuidados de saúde primários é considerada essencial, estando a unidade a desenvolver ações de formação e sensibilização dirigidas a profissionais de saúde e às escolas.
A mutilação genital feminina é definida como qualquer procedimento que implique a remoção parcial ou total dos órgãos genitais externos femininos, ou que provoque lesões nesses órgãos por motivos não médicos. Em Portugal, constitui um crime público, representando uma forma de maus-tratos físicos e psicológicos e uma grave violação dos direitos humanos.