Passaram duas décadas desde a morte de Gisberta Salce Júnior, a mulher trans brasileira assassinada em fevereiro de 2006 no Porto. O crime, cometido por um grupo de 14 menores entre os 12 e os 16 anos, expôs de forma crua a vulnerabilidade das pessoas trans e marcou profundamente o debate público em Portugal.
Natural de São Paulo, Gisberta deixou o Brasil ainda jovem e passou por França antes de se fixar no Porto. Viveu períodos de exclusão social, enfrentou discriminação e acabou em situação de sem-abrigo. Em fevereiro de 2006, foi sujeita a agressões sucessivas, num edifício abandonado, e acabou por morrer na sequência dos maus-tratos.
O caso gerou forte indignação social e abriu um debate nacional sobre transfobia, marginalização e responsabilidade do Estado na proteção de pessoas em situação de vulnerabilidade. Também houve críticas à forma como parte da imprensa tratou inicialmente a identidade da vítima.
Nos anos seguintes, Portugal registou avanços significativos na legislação relacionada com os direitos das pessoas LGBTQIA+. Em 2011, entrou em vigor a primeira lei da identidade de género, permitindo a alteração do nome e do sexo no registo civil. Em 2018, a legislação foi revista e passou a reconhecer o princípio da autodeterminação de género, eliminando a exigência de relatório médico para a mudança legal de género. A proteção contra a discriminação com base na orientação sexual e identidade de género foi igualmente reforçada em diferentes áreas, incluindo educação e trabalho.
A memória de Gisberta ganhou dimensão cultural com a canção ‘Balada de Gisberta’, composta por Pedro Abrunhosa e interpretada por Maria Bethânia. A música tornou-se um símbolo de denúncia e de homenagem, ajudando a manter viva a história da mulher brasileira que se transformou num marco da luta contra a transfobia em Portugal.
Vinte anos depois, o nome de Gisberta continua associado a um ponto de viragem na consciência social do país — um caso que expôs fragilidades, mas também impulsionou mudanças legislativas e maior visibilidade para os direitos das pessoas trans.