Durante o segundo fim-de-semana do passado mês de outubro, o ministro da Presidência, António Leitão Amaro, manteve um discreto encontro, em Cascais, com o norte-americano Devin Nunes, de 52 anos, homem com estreitas ligações às agências de informações de segurança dos EUA e um de um dos mais fiéis conselheiros de Donald Trump.
Coincidência, ou não, algumas horas depois, o mesmo Devin Nunes estava reunido, agora na zona de Aveiro, com o cunhado de Leitão Amaro, o controverso empresário Ricardo Machado – hoje, Ricardo Leitão Machado por adoção do apelido da mulher, ou seja, da irmã do ministro.
Machado, de 46 anos, recorde-se, é suspeito de ter burlado o Estado angolano em mais de 220 milhões de dólares, e encontra-se na iminência de ser constituído arguido em Portugal a pedido das autoridades judiciais de Luanda, que ainda recentemente remeteram para a Procuradoria-Geral da República duas cartas rogatórias a esse propósito…
Apesar do ministro Leitão Amaro, ao invés do que chegou a correr em certos meios, ter garantido ao 24Horas não ter participado nessa reunião, nem ter conhecimento da mesma, “(…) ou sequer sobre a sua existência”, a verdade é que há quem aposte que o ministro da Presidência poderá ter sido determinante na realização da mesma: “Alguém acredita que o Devin Nunes, cuidadoso como é, iria aceitar encontrar-se com o Ricardo Machado pelos seus lindos olhos?”, questionam ironicamente.
Cunhado de ministro tenta envolver homem de Trump em ‘vendetta’
Segundo o que o 24Horas conseguiu apurar, o principal propósito que levou Ricardo Machado a encontrar-se com Devin Nunes teve a ver com a tentativa de entregar ao ‘braço-direito’ de Trump um dossier alegadamente comprometedor para dois importantes membros da ‘nomenklatura’ angolana – Edeltrudes da Costa, o poderoso e influente ministro que é dirige o gabinete do presidente João Lourenço, e João Baptista Borges, ministro da Energia, com quem o empresário se incompatibilizou na sequência do ‘rombo’ que os seus negócios provocaram nos cofres angolanos. Edeltrudes e Borges foram, aliás, os dois homens que denunciaram às autoridades judiciárias a presumível burla de Ricardo Leitão Machado ao Estado angolano.

quis ‘queimar’ junto do braço-direito de Donald Trump
A tentativa de Machado em envolver o ‘inner circle’ do presidente Donald Trump no ajuste de contas que há muito quer levar a cabo com o Estado angolano, parece não ter corrido bem ao empresário. Quanto mais não seja pelo facto de Devin Nunes ser um homem da área das informações, e possuir um conhecimento vasto e profundo sobre vários dossiês, ainda por cima este, que, além de Machado, envolve também uma importante empresa norte-americana, a General Electric: “Só quem não conheça o Devin Nunes, é que acharia que ele alguma vez se deixaria envolver numa ‘vendetta’ deste tipo, ainda por cima destinada a ajustar contas com Angola e com o presidente João Lourenço, com quem os Estados Unidos mantêm excelentes relações”, referem ao 24Horas.
Recorde-se que as polémicas que envolvem o cunhado de Leitão Amaro, não se restringem a Angola, longe disso. Também em Portugal, onde alegadamente está a ser investigado por suposto branqueamento de capitais, os negócios de Ricardo Machado têm levantado uma onda de suspeitas e controvérsias, a ponto de o Partido Socialista ter anunciado querer ouvi-lo no âmbito da Comissão Parlamentar de Inquérito aos Incêndios.
Os helicópteros, “a falta de idoneidade”, e a casa do cunhado
Recorde-se que a Gesticopter, umas das 17 empresas que Machado possui em Portugal, foi quem ganhou o concurso para o fornecimento de meios de combate aos fogos florestais no valor de mais de 16 milhões de euros. Empresa essa, que, por sinal, em Maio do ano passado, chegou a ser alvo de buscas policiais no âmbito da ‘Operação Torre de Controlo’, uma investigação que tenta apurar factos suscetíveis de configurarem a prática de crimes de burla qualificada, fraude fiscal qualificada, tráfico de Influência, corrupção ativa e passiva, abuso de poder e associação criminosa.

Também a recente tentativa de aquisição de uma participação na distribuidora Vasp deu que falar, em grande parte pela mesma, conforme o que o 24Horas noticiou, ter sido ‘chumbada’ pelo próprio ‘compliance’ da empresa, que não reconheceu suficiente idoneidade ao cunhado do ministro, desaconselhando a sua entrada naquela sociedade.
Outro caso, envolvendo Ricardo Machado, que deu que falar foi a venda, em 2021, de uma vivenda no Restelo ao ministro Leitão Amaro, exatamente pelo mesmo preço – 750 mil euros – que lhe custara três anos antes. Uma transação no mínimo estranha, se tivermos em conta os dados do INE, que apontam uma valorização de cerca de 30 por cento naquele período…

As ligações ‘laranjas’ de Ricardo Machado
Mas as ligações políticas de Ricardo Machado não se limitam à excelente relação que mantem com o cunhado, desde os tempos em que ambos militavam na JSD, aliás, onde se conheceram. A ‘agenda’ do jovem empresário é vasta, ainda que circunscrita em grande parte, ao chamado universo laranja, onde se mexe com grande à-vontade, e onde recruta colaboradores e parceiros.
Que o diga, por exemplo, José Eduardo Martins, durante muito tempo seu advogado, e que, juntamente com Luís Marques Mendes, ambos colegas na Abreu Advogados, era visto regularmente na companhia de Machado em Luanda. Ou mesmo Carlos Costa Neves, hoje secretário-geral do Governo, de quem Machado, então com 25 anos, foi adjunto quando este, entre 2004 e 2005, foi ministro da Agricultura no governo de Pedro Santana Lopes, e que, curiosamente, segundo o que o Correio da Manhã noticiou em novembro passado, ‘escondeu’ da sua nota biográfica o facto de ter sido gestor de 3 empresas de Ricardo Machado.
Nota: O 24Horas contactou Devin Nunes, António Leitão Machado, e Ricardo Leitão Machado a propósito das duas reuniões que tiveram lugar no fim de semana de 11 e 12 de outubro passado. Dos três, apenas o misnitro da Presidência respondeu às questões colocadas.