Portugal continua altamente vulnerável ao calor extremo, fenómeno que afeta a saúde dos portugueses. Nos últimos 30 anos, a mortalidade devido às temperaturas elevadas mais do que duplicou. A onda de calor de 2022 foi particularmente complicada, tendo ultrapassado as mil mortes.
As conclusões são do relatório Lancet Countdown in Europe, publicado esta semana na revista The Lancet Public Health, que analisa a forma como as alterações climáticas afetam a saúde das populações, através de 44 indicadores, e como é que os países estão a responder com políticas climáticas. A edição de 2026 vem com um aviso: “A janela para uma ação decisiva em saúde está a fechar‑se.”
A relação entre alterações climáticas e saúde nem sempre é óbvia, porque as consequências não são imediatas, mas tornam-se evidentes na análise de indicadores de saúde, à luz de um clima em transformação.
Um investigador da The Lancet Public Health, José Chen, disse ao Público que “um futuro saudável exige uma ação concertada em Portugal e além-fronteiras para limitar as alterações climáticas e proteger as pessoas dos danos já sentidos”.
Por outro lado, o responsável realçou que, “graças à crescente integração de dados de saúde nos sistemas de alerta precoce para ondas de calor extremo, o número de alertas registados na Madeira triplicou desde a década de 1990 (de 4 alertas anuais entre 1991/2000 para 13 entre 2015/2024), permitindo que as pessoas e os sistemas de saúde tomem medidas para se prepararem e se protegerem”.
Calor extremo pode resultar em mortes, intensificação da época de pólen e doenças infecciosas
As conclusões do relatório revelam que quase todas as regiões da Europa (99,6%) registaram mais mortes relacionadas com o calor entre 2015 e 2024 do que entre 1991 e 2000. “Trás‑os‑Montes registou o maior aumento de mortalidade atribuível ao calor no país, tendo este valor mais do que duplicado entre 1991/2000 e 2015/2024. Este dado expõe uma vulnerabilidade estrutural do Interior: população envelhecida, menor acesso a cuidados de saúde e habitações com fraco isolamento térmico. Os planos de contingência para ondas de calor, desenhados com enfoque nas áreas metropolitanas, necessitam de recalibração urgente para estas regiões”, diz o Conselho Português para a Saúde e Ambiente (CPSA), em comunicado.
Outra das consequências do calor extremo é a intensificação da época do pólen em toda a Europa. “Em média, a época durou mais uma a duas semanas entre 2015 e 2024, em comparação com o período de 1991 a 2000”, sublinha o comunicado, o que aumenta a exposição da população ao alergénio.
O relatório indica também que as alterações climáticas estão a facilitar a propagação de doenças infecciosas e estima-se que o potencial de transmissão da dengue na Europa tenha aumentado 297% no período de 2015/2024, em comparação com 1981/2010, contribuindo para o surgimento de mais surtos locais.
Estes fenómenos reforçam desigualdades sociais que já existiam. Num País onde a pobreza energética já afetava milhares de famílias e em que muitas habitações não estão preparadas para manter uma temperatura adequada, as diferenças entre pessoas mais ou menos favorecidas acentuam-se. “As populações de baixos rendimentos têm 10,9 pontos percentuais mais probabilidade de sofrer insegurança alimentar devido a ondas de calor e secas” quando comparadas com famílias de rendimentos médios.
Além disso, as populações que residem em áreas mais desfavorecidas estão sob riscos acrescidos de incêndios florestais, “maior exposição ao fumo e maior mortalidade atribuível”, alerta o relatório.