A leitura do conhecido marqueteiro político brasileiro João Santana sobre o resultado das eleições na Hungria aponta para um momento de viragem com impacto que ultrapassa o contexto nacional. Na sua análise, a derrota do modelo político associado a Viktor Orbán traduz o desgaste de um ciclo longo de poder e a incapacidade de adaptação a uma sociedade em transformação.
Para Santana, um consultor que se destaca, entre outras caraterísticas, por ter uma visão muito própria do que é a comunicação emocional, não se tratou apenas de uma mudança eleitoral, mas de uma alteração profunda no comportamento do eleitorado, em particular dos segmentos mais jovens e urbanos. Estes grupos, mais expostos a informação plural e menos permeáveis a discursos tradicionais, terão sido decisivos para a inversão de tendência.
Um dos pontos centrais da análise reside na estratégia de comunicação adotada pela oposição. Para além de uma narrativa política mais agregadora, houve uma aposta clara no digital, com campanhas altamente segmentadas, uso intensivo de redes sociais e produção de conteúdos direcionados para públicos específicos. Esta abordagem permitiu contornar canais tradicionais, muitas vezes dominados pelo poder instituído, e construir uma relação direta com os eleitores.
Ao mesmo tempo, a campanha não se esgotou no digital. Santana sublinha a importância de uma presença territorial consistente, com mobilização no terreno, proximidade e construção de confiança local — elementos que reforçaram a credibilidade da alternativa política.
Para o estratega, o caso húngaro evidencia uma lição central: em contextos de forte controlo institucional, a combinação entre estratégia digital eficaz e implantação no terreno pode ser determinante para quebrar hegemonias políticas. Mais do que uma derrota circunstancial, trata-se, na sua perspetiva, de um sinal de que mesmo lideranças consolidadas podem ser vulneráveis quando enfrentam campanhas modernas, bem estruturadas e alinhadas com as novas dinâmicas sociais.