A Grécia enfrenta uma grave crise sanitária e económica no setor agropecuário, após o abate de cerca de meio milhão de ovelhas e cabras devido à propagação da varíola ovina e caprina, detetada no país desde agosto de 2024.

A situação ganhou contornos dramáticos no início de janeiro, com o suicídio de um criador de gado de 52 anos no município de Vrondú, na região de Pieria, depois de ter sido obrigado a abater cerca de mil animais do seu efetivo. O irmão da vítima explicou às autoridades locais que o agricultor “estava muito ligado aos animais”, um episódio que veio expor o profundo impacto humano e psicológico da crise no mundo rural.

Desde 21 de agosto de 2024, a doença alastrou rapidamente por várias regiões do país. Até 19 de dezembro de 2025, foram confirmados 1.985 surtos em 2.449 explorações agrícolas, o que levou ao abate sanitário de 450.233 animais, de acordo com dados do Comité Científico Nacional para a Gestão e Controlo da Varíola Ovina e Caprina.

Apesar da dimensão do surto, o Governo grego continua a rejeitar a vacinação, contrariando recomendações da Organização Mundial da Saúde Animal e da Comissão Europeia. A decisão está diretamente relacionada com a proteção do queijo feta, um dos principais produtos de exportação da Grécia. Cerca de 80% do leite de ovelha e cabra produzido no país é destinado à produção de feta, sendo aproximadamente 65% dessa produção exportada. A introdução da vacinação implicaria a perda do estatuto sanitário atual, o que poderia resultar em restrições severas às exportações, com impacto num setor que, em 2024, gerou cerca de 785 milhões de euros em vendas ao exterior.

Perante a recusa em avançar com a vacinação, as autoridades gregas optaram por uma estratégia de esvaziamento sanitário das explorações afetadas. Esta abordagem prevê o abate total dos efetivos sempre que é detetado um único caso, seguido da destruição controlada dos cadáveres e da desinfeção das instalações.

Numa carta enviada a Atenas em outubro de 2025, a Comissão Europeia alertou que estas medidas “não são suficientes para travar a propagação da doença nem para reduzir o número de animais abatidos”. Ainda assim, o Governo mantém a estratégia, receando que a vacinação coloque em risco não só o mercado do queijo feta, mas também a exportação de animais vivos para países do Médio Oriente, outro segmento relevante do setor pecuário grego.