O Relógio do Juízo Final foi novamente ajustado, aproximando-se ainda mais da meia-noite, símbolo de uma catástrofe global. Os ponteiros passam agora a marcar 85 segundos para o fim do mundo, menos cinco segundos do que no ano passado, tratando-se da posição mais próxima alguma vez registada desde a sua criação.

De acordo com o Boletim dos Cientistas Atómicos, entidade responsável pelo indicador, a decisão reflete o agravamento das tensões geopolíticas, a intensificação de conflitos armados envolvendo potências nucleares e o enfraquecimento dos mecanismos de cooperação internacional.

“Há um ano, alertámos para o facto de o mundo estar perigosamente próximo de uma catástrofe global e de que qualquer atraso na inversão deste rumo aumentaria a probabilidade de desastre. Em vez de atenderem a este aviso, a Rússia, a China, os Estados Unidos e outros países de peso tornaram-se progressivamente mais agressivos, adversarias e nacionalistas”, refere o comunicado divulgado pelos cientistas.

Entre os principais fatores de instabilidade apontados estão a guerra na Ucrânia, os confrontos recorrentes entre a Índia e o Paquistão, bem como ataques e ameaças envolvendo instalações nucleares iranianas. O relatório alerta ainda para riscos emergentes associados à biotecnologia e à Inteligência Artificial (IA), incluindo a possibilidade de criação de novos agentes patogénicos e o uso de sistemas de IA em contextos militares sensíveis, com reduzido controlo humano.

Criado em 1947, em pleno início da Guerra Fria, o Relógio do Juízo Final foi concebido pela artista Martyl Langsdorf e apresentado inicialmente com os ponteiros a sete minutos da meia-noite. O projeto surgiu no seio do Boletim dos Cientistas Atómicos, fundado em 1945 por figuras como Albert Einstein e Robert Oppenheimer, antigos membros do Projeto Manhattan, com o objetivo de alertar para os perigos da energia nuclear e das armas de destruição maciça.

Ao longo das décadas, o relógio foi sendo ajustado em função da evolução do contexto internacional. Em 1953, após os Estados Unidos e a União Soviética testarem bombas de hidrogénio, os ponteiros avançaram para apenas dois minutos da meia-noite, um dos momentos mais críticos da Guerra Fria. Pelo contrário, em 1963, a assinatura do Tratado de Proibição Parcial de Ensaios Nucleares permitiu recuar o relógio para 12 minutos.

O maior afastamento de sempre ocorreu em 1991, quando os ponteiros recuaram para 17 minutos da meia-noite, na sequência do fim da Guerra Fria e da assinatura do Tratado START entre os Estados Unidos e a União Soviética para a redução de armas nucleares estratégicas.

Nos últimos anos, a tendência tem sido claramente inversa. Em 2020, o relógio passou a marcar 100 segundos para a meia-noite, ultrapassando pela primeira vez a barreira dos dois minutos. Em 2023, avançou para 90 segundos, posição que se manteve em 2024. O novo ajuste para 85 segundos reforça, segundo os cientistas, a perceção de que o mundo enfrenta riscos simultâneos – nucleares, climáticos, tecnológicos e biológicos – sem precedentes na história recente.