Nos últimos meses, têm surgido múltiplos alertas em vários países europeus sobre um fenómeno preocupante nas redes sociais, especialmente no TikTok: o chamado ‘Desafio do Paracetamol’. Esta tendência incentiva adolescentes a ingerir doses muito acima do que é considerado seguro deste medicamento comum – usado para aliviar dores ligeiras e febre – com o objetivo de competir entre si para ver quem tolera mais tempo sem ir ao hospital ou quem permanece internado por mais tempo. Relatórios internacionais indicam que este tipo de desafio foi identificado pela primeira vez em agosto de 2023, nos Estados Unidos, antes de se espalhar por outras plataformas e chamar de novo a atenção dos meios de comunicação, em 2025 e 2026, em países como Bélgica, França, Alemanha, Espanha, Suíça e Argentina. 

O paracetamol, apesar de ser vendido sem receita médica, tem limites de segurança claramente definidos: em adultos, a dose diária máxima recomendada é geralmente de 4 gramas, com doses individuais não devendo ultrapassar 1 grama. Doses muito superiores sobrecarregam o fígado, que produz substâncias tóxicas durante a metabolização, podendo causar lesões hepáticas graves. A intoxicação por paracetamol pode demorar a manifestar sintomas evidentes – inicialmente surgem apenas náuseas, cansaço ou dor abdominal – e apenas nas 24 a 48 horas seguintes podem surgir sinais de insuficiência hepática, falência de órgãos ou risco de morte se não houver tratamento atempado. 

Em várias regiões da Europa, profissionais de saúde já registaram casos de adolescentes que participaram nesta tendência e acabam por necessitar de cuidados médicos urgentes. Por exemplo, hospitais em Espanha, incluindo o Hospital Regional de Málaga, têm alertado que crianças e adolescentes de entre 11 e 14 anos foram atendidos com sintomas de intoxicação grave por paracetamol após ingerirem grandes quantidades – em alguns casos até 10 gramas de uma vez – e precisaram de internamento urgente para evitar lesões hepáticas extremas. Médicos relatam sintomas que incluem vómitos persistentes, dor abdominal intensa e alterações de comportamento, sinais que exigem vigilância médica mesmo na ausência de intenção suicida. 

Autoridades de saúde e centros de controlo de intoxicações em países como a Bélgica também emitiram advertências desde janeiro de 2025, alertando que este tipo de desafio tem levado a hospitalizações entre adolescentes e pode ser fatal. O Belgian Poison Control Centre alertou especificamente que este comportamento competitivo – ingerir paracetamol em excesso para passar mais tempo no hospital – é extremamente perigoso, podendo causar não apenas falência hepática mas também lesões renais, problemas neurológicos e até a morte se não for tratado rapidamente. 

Embora não haja, até ao momento, registos públicos de mortes em Portugal diretamente atribuídas ao ‘Desafio do Paracetamol’, nem reportagens que confirmem casos de adolescentes portugueses hospitalizados devido a esta prática, as autoridades e os meios de comunicação nacionais têm acompanhado o fenómeno com preocupação. As notícias no nosso país têm-se centrado sobretudo nos alertas internacionais e nos casos registados noutros países, sublinhando que o risco é real e que pode rapidamente chegar ao contexto nacional. Perante este cenário, médicos, serviços de saúde e especialistas em prevenção defendem a importância de os pais, educadores e responsáveis falarem com os jovens sobre os perigos do uso indevido de medicamentos e da imitação de modas online, e de procurarem ajuda médica imediata ao primeiro sinal de ingestão excessiva.