
José Braga Gonçalves
Enquanto pelo Mundo se guerreia, podemos lançar um olhar sobre uma outra guerra, uma travada em Portugal, onde hoje também se morre.
Apenas, morre-se em silêncio; morre-se na vergonha de ser idoso, de ser mais vulnerável, de ser doente crónico ou terminal, até de ser acometido de uma qualquer maleita passageira que se torna grave.
Por cá, também temos uma guerra, esta, destinada a impedir o quanto possível e por qual meio seja, o acesso aos mais elementares medicamentos a preços que os mais fracos possam pagar: o preço dos medicamentos genéricos.
Vê-se em cada frente de batalha judicial, ouve-se em cada frente de balcão de farmácia, sente-se em cada consultório médico, esta guerra de uma qualquer marca travada contra o direito à saúde, o direito à vida, até.
Mas tal como os bancos, o único verdadeiro ativo das farmacêuticas de marca é a confiança. O resto, são remédios.
E para tudo há remédio.

José Braga Gonçalves
Nenhum regime resiste à brutal decapitação perpetrada pelos Estados Unidos e Israel, do poder instituído há cinco décadas no Irão.
O velho regime caiu; mas o sistema teocrático persiste como alvo, ecoando os receios expressos pelo primeiro líder, o aiatolá Khomeini, antes de morrer.
Apela agora o Ocidente aos antigos Persas para agarrarem a oportunidade de lutar pela sua própria liberdade, contra o que resta daquele regime ditatorial e teocrático.
Mas essa luta apenas vencerá se for contra o próprio sistema, aquele que escravizou mulheres, mandou para a morte certa milhões nas trincheiras do Iraque, assassinou quem não rezava a Alá, dizendo-se eles os únicos intérpretes do Profeta.
Se Maomé voltasse à Terra, estaria certamente do lado dos Persas, não da teocracia cleptocrata dos mulás.
Apenas, Maomé não volta.

José Braga Gonçalves
Os iranianos devem estar a rir a bandeiras despregadas com o último atentado à vida de Trump em que um simples intruso, suposto hóspede de hotel, chegou até uns metros do Presidente no jantar magno e anual dos jornalistas credenciados pela Casa Branca.
Armado até aos dentes, o atirador desatou aos tiros, e atirou a matar sobre o primeiro e surpreso agente que encontrou, já perto da sala onde decorria o jantar.
Do outro lado do Mundo, Netanyahu, não deve ter dormido, a pensar quão fácil era assassinar o seu aliado-mor.
Em mais este episódio de falhanço dos Serviços Secretos americanos, levanta-se a questão da infalibilidade.
Sabemos que, naquele mesmo hotel em Washington, uma tentativa de assassinato de Ronald Reagan quase teve sucesso, sendo o então Presidente atingido e ficado em grave perigo de vida, com 6 meses de recuperação.
Se é fácil ir buscar um Maduro à cama, provado está, pela segunda vez, que qualquer assassino amador pode chegar ao Presidente dos Estados Unidos.
E se um dia for um profissional?

José Braga Gonçalves
O Irão não desconhece a História de Roma antiga. Nesta usava-se, já muito antes de Cristo, a expressão “à maneira de Fábio”.
Fábio é Quinto Fábio Máximo, um general e ditador romano conhecido pela sua guerra contra o general cartaginês Aníbal, o dos elefantes de combate, admirado e seguido até por Bonaparte.
O romano saiu vencedor e salvou Roma ao recusar-se enfrentar Aníbal em batalha direta aguardando que os seus elefantes morressem de frio após atravessar os Alpes.
Imitando Fábio, os aiatolás são hoje a personificação histórica da estratégia de quem foge à ação imediata para vencer pelo desgaste e pela paciência.
Sabendo que não podem derrotar o novo Aníbal num confronto direto, adoptam a tática de Fábio, evitando batalhas campais no Golfo, mantendo o exército em terreno seguro e deixando sacrificar diariamente os seus generais.
Esta “tática fabiana”, como ficou conhecida, resultará até ao dia em que Aníbal lance as suas hordas de elefantes de guerra evanescer a milenar civilização persa para gáudio de uns aiatolás fanáticos que apenas buscam o martírio de um povo que já nem sequer é o seu.
O verdadeiro povo persa anseia por ouvir os tambores de guerra de Aníbal e as passadas dos seus elefantes.
De guerra.

José Braga Gonçalves
Subitamente, um americano surge das catacumbas como principal figura de um mundo em teatro de guerra, onde apregoa alto pela paz.
A sua voz, audível do outro lado do Atlântico, prega contra um outro americano que lhe responde, em incómodo desafio.
Chegou-se a pensar que aquela voz das catacumbas fora eleita por influência da outra voz do Atlântico, ou vontade de seu aplacamento por parte da Cúria Romana.
Parece que não.
E subitamente, a guerra das armas passa para uma guerra de palavras pela Paz, outras em favor da Guerra, sabendo uma que almas não perde e a outra que só votos lhe pode levar.
De permeio, a Humanidade assiste atónita a esta guerra de catacumbas onde a amargura da resposta cai na vertigem da afirmação.
Afinal, são apenas dois americanos.

José Braga Gonçalves
Mark Twain, ao chegar-lhe a notícia da sua própria morte publicada num artigo de jornal, proferiu a célebre frase: “As notícias da minha morte são manifestamente exageradas”. E assinou.
O mesmo aconteceu com Alfred Nobel, de cognome ‘O mercador da Morte’, aquando da morte de seu irmão anunciada como a sua. E não assinou.
Mutatis mutandis, também Trump poderia dizer que as notícias sobre a sua morte política são manifestamente exageradas. E pode assinar.
Elas são exageradas nas aspirações dos seus adversários e, sobretudo, nas dos seus inimigos de cujas intenções está o inferno cheio, pois nem só de boas se paira por lá.
Das boas intenções, que levarão Trump ao inferno e que não são manifestamente exageradas, estão a tomada do petróleo da Venezuela, o apoio sem pejos a Israel, e a tomada seguinte de Cuba.
Com estas três, apenas, Trump passa pelo purgatório das intercalares, ao que, ditar-lhe a morte política, parece manifestamente exagerado.
O inferno o dirá.

José Braga Gonçalves
Todos nos lembramos do filme ‘O Caçador’ e da marcante cena do jogo de roleta russa. É de suster a respiração. Ao olharmos hoje para o Irão, revemos a cena, com outros atores, moribundos uns, outros caídos no chão.
Os russos, inventores da roleta de morte e que ensinaram os iranianos a jogar, como estes antes lhes ensinaram o jogo de xadrez (shatranj), não lhes disseram que na roleta russa o tambor da pistola é suposto levar apenas uma bala, e não cinco. E que, ao fim de cada sorte de tiro, se deve rodar o mesmo, antes de disparar novamente.
Acontece que os russos estão a olhar de longe e apenas a fazer sinais com bandeirinhas. Os Aiatolás, esses, continuam a disparar sem rodar o tambor. E de cada vez, cai mais um, à espera de acertar na câmara sem bala. Mas há que os parar. Alguém tem que dizer àquela gente que já chega de arriscarem a vida de todo um país milenar.
O que está em causa já não é só um regime cansado ou uma teocracia desvairada; é o próprio coração persa, a cultura que deu ao mundo a poesia de Hafez e as luzes de Isfahan. Um país inteiro refém de um punhado de homens que confundem martírio com glória e poder com fé. Alguém lhes agite umas bandeirinhas.
Ou vão acabar em cacos, ou como a sua própria marinha, num qualquer fundo de mar. E não há volta a dar.

José Braga Gonçalves
Há milhares de anos, os persas, hoje ditos iranianos, deram origem à primeira religião monoteísta, a qual inspirou todas as demais. Judaísmo, cristianismo e islamismo são influenciados pela obra teológica de Zoroastro ou Zaratustra, um persa considerado o primeiro filósofo da Humanidade. Aquela religião ancestral tinha uma essência: a luta entre o bem e o mal. Era dicotómica, e nisso mais radical do que as religiões vindouras. O Bem e o Mal eram a sua vida e a sua morte, e está-lhes na massa do sangue.
É esse sangue velho-persa, moldado por Zaratustra, que agora pode surgir à tona, vindo das entranhas de uma tradição que os iranianos não entendem ou erroneamente entendem como sendo islâmica. Mas não é. E por isso é perigosa.
Se não se vislumbrar uma vitória militar rápida, em algum momento os persas de sangue velho para quem os Ayatolas se tornaram no Mal de Zoroastro, podem começar a olhar para o Grande Satã, agora como o ator desse Mal.
E então, mesmo que caia o regime, o sistema sobreviverá.

José Braga Gonçalves
O Irão anda pela Suíça a tentar comprar um bom relógio suíço. Precisa comprar tempo. Tempo para cumprir a regra que o velho Khomeini estabeleceu como a Regra Suprema: “Preservar o sistema é o dever mais elevado.” E tempo, porque, desta vez, são os persas que estão nas Termópilas.
Já menos de 300 lançadores lhes sobram, tantos quantos os guerreiros espartanos que contiveram Xerxes, filho de Dario, o seu grande ancestral. Mas estes persas, agora iranianos, nem são os espartanos de então, nem têm Xerxes para os comandar. E têm a forçar o estreito deles uma força que lhes quer rasgar o ventre daquela Regra Suprema e exterminar-lhes o sistema, assim vingando a humilhação dos reféns de 1979.
Por isso, Teerão precisa de um relógio suíço. Um que se atrase. E que se atrase para se poder reorganizar internamente, agora que comunicaram ao mundo a indicação de um novo Líder Supremo, que jamais foi visto.
Mas é estreito este espaço de tempo. Tão estreito quanto o das Termópilas, pois que o filho do rei morto, o rei posto Khamenei II, se não morto também, terá pela frente um presidente Trump que mantém a posição de “rendição incondicional” como única saída.
A única que lhe foi dada e, por ora, outra se lhe não vê, salvo se o relógio suíço se atrasar, pois, neste momento crítico, quaisquer silêncios, negociações, ou mesmo recuos, visam um único objetivo: a autopreservação do sistema.
Mesmo que caia o regime.

José Braga Gonçalves
Escrevi em artigo anterior que Trump pode fazer o que na real gana lhe der em relação à guerra no Irão, à manutenção do status quo na Venezuela, ou até à entrada em Cuba.
O Congresso não tem forma de o travar, pois ele pode sempre vetar qual seja a deliberação do Congresso contra qual seja a guerra ou intervenção, e este ficará acantonado numa votação de 2/3 para invalidar e ultrapassar o veto presidencial.
Contudo, o Congresso conserva uma lâmina discreta, mas também eficaz: o Orçamento.
Este, permite limitar os recursos e pode resolver aquilo que os discursos não conseguem.
No fundo, como tantas vezes na história, não é quem levanta mais a espada que decide o desfecho, mas quem controla os meios.
E o Congresso dos Estados Unidos ainda controla os meios. E aqui, bastam 50%, mais um voto.
Assim, Trump está refém das eleições intercalares para poder continuar as suas intervenções no teatro de qualquer guerra ou invasão, que seja, a prometida de Cuba.
Sem embargo, e como ele muito bem já ameaçou os republicanos em relação a estas eleições intercalares, se os Democratas obtiverem maioria no Congresso, lá virá um impeachment e a probabilidade de Trump ser arredado da cadeira da sala oval, é bastante elevada.
Ele o disse.