
José Braga Gonçalves
O Irão anda pela Suíça a tentar comprar um bom relógio suíço. Precisa comprar tempo. Tempo para cumprir a regra que o velho Khomeini estabeleceu como a Regra Suprema: “Preservar o sistema é o dever mais elevado.” E tempo, porque, desta vez, são os persas que estão nas Termópilas.
Já menos de 300 lançadores lhes sobram, tantos quantos os guerreiros espartanos que contiveram Xerxes, filho de Dario, o seu grande ancestral. Mas estes persas, agora iranianos, nem são os espartanos de então, nem têm Xerxes para os comandar. E têm a forçar o estreito deles uma força que lhes quer rasgar o ventre daquela Regra Suprema e exterminar-lhes o sistema, assim vingando a humilhação dos reféns de 1979.
Por isso, Teerão precisa de um relógio suíço. Um que se atrase. E que se atrase para se poder reorganizar internamente, agora que comunicaram ao mundo a indicação de um novo Líder Supremo, que jamais foi visto.
Mas é estreito este espaço de tempo. Tão estreito quanto o das Termópilas, pois que o filho do rei morto, o rei posto Khamenei II, se não morto também, terá pela frente um presidente Trump que mantém a posição de “rendição incondicional” como única saída.
A única que lhe foi dada e, por ora, outra se lhe não vê, salvo se o relógio suíço se atrasar, pois, neste momento crítico, quaisquer silêncios, negociações, ou mesmo recuos, visam um único objetivo: a autopreservação do sistema.
Mesmo que caia o regime.

José Braga Gonçalves
Escrevi em artigo anterior que Trump pode fazer o que na real gana lhe der em relação à guerra no Irão, à manutenção do status quo na Venezuela, ou até à entrada em Cuba.
O Congresso não tem forma de o travar, pois ele pode sempre vetar qual seja a deliberação do Congresso contra qual seja a guerra ou intervenção, e este ficará acantonado numa votação de 2/3 para invalidar e ultrapassar o veto presidencial.
Contudo, o Congresso conserva uma lâmina discreta, mas também eficaz: o Orçamento.
Este, permite limitar os recursos e pode resolver aquilo que os discursos não conseguem.
No fundo, como tantas vezes na história, não é quem levanta mais a espada que decide o desfecho, mas quem controla os meios.
E o Congresso dos Estados Unidos ainda controla os meios. E aqui, bastam 50%, mais um voto.
Assim, Trump está refém das eleições intercalares para poder continuar as suas intervenções no teatro de qualquer guerra ou invasão, que seja, a prometida de Cuba.
Sem embargo, e como ele muito bem já ameaçou os republicanos em relação a estas eleições intercalares, se os Democratas obtiverem maioria no Congresso, lá virá um impeachment e a probabilidade de Trump ser arredado da cadeira da sala oval, é bastante elevada.
Ele o disse.

José Braga Gonçalves
A Lei dos Poderes de Guerra (War Powers Resolution), foi uma Lei do Congresso aprovada em 1973, após o fim da participação americana na guerra do Vietname, Lei que visou a recuperação pelo mesmo Congresso do controlo sobre a capacidade de um Presidente americano prosseguir numa guerra.
Esta Lei impõe ao Presidente a notificação do acto de guerra ao Congresso no prazo de 48 horas após o início das hostilidades, obrigando o Presidente a encerrá-las em 60 a 90 dias, salvo autorização congressional explícita.
Esta semana vimos aquela Lei ser invocada para dar origem a uma nova votação na Câmara e no Senado visando impedir Trump de continuar a guerra no Irão, assim tentando aparentemente dar um nó Górdio ao Presidente.
Tal como Alexandre, o Grande, que desfez o nó com um golpe de espada, também Trump tem uma espada na mão para brandir à Câmara dos Representantes e ao Senado: mesmo que houvesse qualquer resolução vencedora em qualquer das Câmaras, Trump poderia sempre vetá-la.
E aqui a aritmética é brutal.
Para anular um veto presidencial são necessários dois terços em ambas as câmaras.
No Senado significa 67 votos e mesmo que todos os democratas votassem a favor, precisariam de arrastar consigo 20 republicanos. Desta vez conseguiram apenas um – Rand Paul.
Na Câmara, a proporção é semelhante.
Assim, mesmo com uma deserção republicana significativa, a eficácia prática seria zero. Votar contra um Presidente do próprio partido em tempo de guerra é, na cultura política americana, um suicídio eleitoral nas intercalares.