Pode ter muitos defeitos, mas o nosso estimado Presidente Marcelo não é ingénuo. Assim que percebeu que teria de ir...
Pode ter muitos defeitos, mas o nosso estimado Presidente Marcelo não é ingénuo. Assim que percebeu que teria de ir a Coimbra repetidas vezes durante as cheias, tratou de afastar discretamente a senhora presidente da Câmara, pessoa de verniz raso e compostura frágil. Um pequeno pre-emptive strike institucional, sob a forma de um elogio público à personagem.
Com pessoas destas, que não foram sobrecarregadas por refinamento, bastam dois ou três elogios bem colocados para produzir efeitos imediatos. Derretem-se. Interpretam-nos como aceitação num clube ao qual sempre aspiraram pertencer, quando na verdade funcionam sobretudo como sinalização para os restantes presentes: atenção, há aqui alguém socialmente desafinado.
Num país onde o Big Brother e o Preço Certo continuam a liderar audiências, comportamentos pouco polidos não penalizam; pelo contrário, rendem dividendos eleitorais. Vivemos numa era em que a teatralidade vale mais do que o conteúdo. Apostaria que as equipas de comunicação já estarão a preparar um vídeo para as redes sociais onde a autarca surge a pôr um ministro na ordem, versão heroica incluída.
Houve um tempo, talvez mitológico, em que a política era ocupada por pessoas que sabiam usar talheres e eram parcimoniosas nas opiniões que proferiam. Confesso alguma saudade desses agrupamentos partidários compostos por criaturas civilizadas, onde a formação era exigida e o decoro não era visto como elitismo, mas como higiene básica. Os políticos não berravam na rua nem faziam da televisão um prolongamento da tasca.
O processo de erosão começou cedo, com os primeiros governos de Cavaco, quando fomos convidados a aceitar uma galeria de figuras que exibiam as suas origens provincianas como certificado de pureza política. O tempo encarregou-se de mostrar que o défice de civilidade não imuniza ninguém contra os vícios do poder. Encantados com o novo estatuto, acabaram queimados como tantos outros, com ou sem pedigree.
Sou realista por natureza e aceito que esta nova realidade veio para ficar, com tendência para piorar. A descida qualitativa tornou-se inevitável a partir do momento em que passámos a ter comentadores de futebol como líderes partidários e líderes partidários a aspirar a comentadores de futebol. A discussão política transformou-se numa conversa entre claques, cada qual entregue ao seu fanatismo e cuja principal preocupação é humilhar publicamente o adversário. Nem que, para isso, se recorra a distorções, mentiras e insultos pessoais.
E, ao que parece, também a peixeiradas em direto nos telejornais.