
Jorge Morais
Há dias, ao ler a notícia da apresentação de um livro em Setúbal, surpreendi-me com a frase: “No final, haverá um momento musical com a apresentação de uma serenata coimbrã”. Serenata coimbrã em Setúbal? Mas instantaneamente caí em mim: não há qualquer motivo para surpresa.
A canção de Coimbra tornou-se, na segunda metade do século XX, um dialecto académico universal. A sua nobre genealogia, tendo como Pai Fundador o célebre Augusto Hilário, inclui glórias que ainda podemos ouvir em discos de goma-laca a 78 rotações: António Menano, Edmundo de Bettencourt (homem da revista Presença, que trouxe para as serenatas uma nova geração de poetas), Paradela de Oliveira, Lucas Junot, Armando Goes (tio de Luiz) e muitos outros. Foi a chamada “geração de ouro” das vozes de Coimbra.
Na guitarra coimbrã, perdura a fama de Afonso de Sousa, Felisberto Passos, Luís Providência e sobretudo Artur Paredes, que não só acompanhou a “geração de ouro” como introduziu inovações técnicas e morfológicas que elevaram a sua arte a um nível de erudição nunca antes alcançado. Teve discípulos em seu filho, o genial Carlos Paredes, e em Jorge de Morais (coincidência de nome), o famoso “Xabregas”, criador do Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra e guitarrista exímio.
Mas é a “segunda geração de ouro coimbrã” que nos está mais chegada, não apenas pela proximidade cronológica mas principalmente pela conjuntura social e cultural em que atuou. Emergindo nos anos 50, esta “segunda geração” trouxe à canção de Coimbra um forte ressurgimento musical e poético, conferindo ao “fado académico” uma densidade literária superior e uma postura crítica que ultrapassou em muito o âmbito musical. Surgem então Luiz Goes, Adriano Correia de Oliveira, José Afonso dos Santos, João Queiroz, Fernando Machado Soares, Fernando Rolim, outros ainda. Na guitarra estão Carlos Paredes, António Pinho Brojo, António Portugal, Jorge Tuna; na viola, Aurélio dos Reis, Mário de Castro, Manuel Pepe e Rui Pato, que Adriano e José Afonso tiveram como acompanhante de eleição.
A canção de Coimbra (ou “fado de Coimbra”, como indiferentemente é referida) teve nos anos 50 e 60 do século XX o seu período glorioso, a que não foram estranhos a proliferação de estações de rádio, o surgimento da televisão e a abnegação de algumas casas editoras de música, como a de Arnaldo Trindade. Ficaram ainda célebres algumas digressões de embaixadas coimbrãs ao Ultramar, que eram objeto de vastas reportagens nos Media e que o também cantor António de Almeida Santos recorda nas suas memórias. É desta época a criação de várias Casas da Académica e filiais da Associação Académica de Coimbra, tanto no Continente como em África.
A difusão da canção coimbrã por todo o país, acompanhando uma inquietação social e política ‘sub rosa’, teve um poderoso reflexo no desporto, com as equipas de futebol e basquetebol da Associação Académica de Coimbra a destacarem-se nos respetivos campeonatos, tudo culminando numa célebre final da Taça de Portugal em que a equipa da Briosa entrou no campo do Jamor em sinal de luto, a passo lento, capas pendidas e não traçadas e o emblema do clube encoberto por um crepe funério. Estava-se no auge da Crise Académica de 1969.
Foi no contexto da difusão da cultura académica coimbrã que também em Setúbal nasceu um forte núcleo academista. Era seu expoente máximo Augusto da Cunha Martins, a quem a tradição chamava “Martins Teórico” (epíteto que partilhava com seu irmão, Alberto Martins, que foi o grande impulsionador do basquetebol na Académica de Coimbra) e a quem os miúdos do Liceu, seus alunos, chamavam “o Alturas”, atendendo aos seus dois metros da cabeça aos pés.
No Liceu Nacional de Setúbal, antes Liceu Bocage, floresceu então uma sub-cultura coimbrã que conquistou a massa estudantil e resultou em fidelidades à Briosa que ainda hoje subsistem. Aqui me confesso. O corpo docente do Liceu contava, não apenas com o bom gigante Augusto Martins, que às segundas-feiras abria as aulas (5º Grupo, Ciências Geográficas e Naturais) com uma resenha crítica e analítica do último jogo da Académica, mas ainda com um conjunto de outros professores igualmente oriundos de Coimbra, que ao longo dos anos foram sendo atraídos por esta “Coimbra em Setúbal” tão intensa, tão apaixonada, tão genuína – entre outros, o reitor Estêvão Moreira (Filosofia e História), Antero Torres (Latim e Grego), Joaquim Calado (Matemática), Maria Benedita Martins (Português e Francês) e – sim, eles mesmos – os cantores de Coimbra José Afonso e Fernando Rolim, um como professor de História e Organização Política, o outro como médico do Liceu.
Uma serenata coimbrã em Setúbal? Nada mais natural numa cidade que, como muitas outras, absorveu e manteve a cultura academista no coração. No coração me ficou e aqui permanece o saudoso mestre Augusto Martins, o “Martins Teórico”, “o Alturas”, amigo do peito através dos anos que depois passou na Inspeção do Ensino Liceal, na Inspeção-Geral do Ensino, nas reformas ministeriais dos anos 80 e na elaboração de diretrizes programáticas e de manuais escolares no Ministério, onde continuei a frequentá-lo. Após a jubilação reencontrei-o ainda em Cascais, que escolheu para viver os seus últimos anos e onde morreu em Maio de 1990. Muito do espírito da “Coimbra em Setúbal” ficou a dever-se-lhe – e há dias, ao ler a notícia de uma serenata coimbrã na apresentação de um livro, recordei com saudade este pedagogo de alta estirpe, este academista que no éfe-érre-á tunante da estudantina nos foi franqueando a porta férrea da vida e da sophia.

Jorge Morais
São muitas as causas da crise da habitação. Tenho ouvido falar da pressão migratória. Da profusão de alojamentos turísticos. Do crescimento da comunidade estudantil. Das casas que os senhorios mantêm vazias. Dos vistos gold. Do fraco ritmo de construção.
Mas não ouvi ainda falar da causa das causas: a migração massiva do Interior para o Litoral – migração que alterou radicalmente a equação demográfica nos últimos cinquenta anos e transformou as cidades costeiras em formigueiros sobrelotados onde tudo acontece: o comércio, a indústria, o emprego, o turismo, os bens de consumo, a saúde, as escolas, os transportes.
Hoje, entre 70% e 75% dos portugueses residem nas principais cidades da faixa Litoral. A assimetria é medonha: enquanto muitos concelhos do Interior registam densidades inferiores a 20 habitantes por quilómetro quadrado, os subúrbios litorais criados por este êxodo ultrapassam facilmente os 1.000 habitantes por quilómetro quadrado.
Milhões de pessoas que até aos anos 60 habitavam aldeias, vilas e cidades do Interior acotovelam-se hoje em Lisboa (mais de meio milhão só nas freguesias centrais), nos dormitórios do concelho de Sintra (o segundo mais populoso do país), no Porto, em Matosinhos e em Gaia, em Almada, Seixal, Barreiro, Montijo, Setúbal.
Nem com planos quinquenais e gaiolas de contraplacado seria possível resolver o problema da habitação à velocidade ideal.
A questão punha-se já nos anos 60, embora em proporção relativamente modesta: quase não dávamos pelo avanço do cimento, pela obesidade do tecido urbano das Rinchoas e das Quintas do Conde. Mas a densa litoralização ia avançando: no início dessa década, um terço dos habitantes do Litoral já se concentrava em grandes cidades. Por contraste, a concentração urbana no Interior tardava: só um em cada 16 habitantes do Interior morava numa cidade.
O êxodo rural em Portugal foi impulsionado, numa primeira fase, ainda nos anos 50, pela estagnação das tecnologias agropecuárias: a dureza das condições de vida no campo e a falta de perspetivas profissionais estimulou um fluxo emigratório que cresceu exponencialmente na década seguinte. Foi a época da França e das bidonvilles.
Num segundo balanço, e como alternativa mais acessível, o afloramento industrial, por modesto que fosse, trouxe levas de mão-de-obra para polos então em expansão: Lisboa/Setúbal e Porto/Aveiro/Braga, sobretudo. Postos de trabalho sem quebras sazonais, salários mais elevados e acesso a infraestruturas modernizadas atraíram ao Litoral aldeias inteiras onde só permaneceu quem já não tinha idade para arriscar, num tempo em que grande parte do Portugal rural vivia na escassez, sem acesso a estruturas e serviços básicos.
O advento da televisão levou progressivamente às terras do Interior a revelação de um mundo mirífico que parecia só ser possível nas grandes metrópoles. A ausência de planeamento prejudicou o crescimento de grandes polos no Interior, que teriam servido para fixar populações. Em vez disso, a camioneta que partia da serra só parava na Cova da Piedade ou em Moscavide.
Chegámos agora a mais de oito milhões de pessoas condensadas em meia dúzia de grandes urbes dominando uma língua de terra com 60 quilómetros do mar para dentro. Querer casa barata depressa e para todos é pedir a lua.
O problema da habitação, dizem os expertos, demorará pelo menos uma década a resolver nos formigueiros litorais. Esperemos que, entretanto, o ainda tímido crescimento das cidades interiores ganhe força e vigor nos próximos anos, aliviando a pressão sobre os dormitórios costeiros e criando alternativas de vida com qualidade nos territórios da desertificação.
É, estruturalmente, a solução a longo termo.

Jorge Morais
Se alguém tem razões de queixa, motivos para protestar e até para fazer greve é o pequeno autarca, que a troco de uma migalha orçamental entrega a sua vida, vinte e quatro horas por dia, ao povo da freguesia.
Ele levanta-se a meio da noite se é chamado a reparar o cano da água ou para acudir se o telhado caiu, faz vigília quando há tempestade sobre a aldeia, é o primeiro a abrir a porta da Junta e o último a fechá-la, sempre de serviço para o atestado, para a reunião de moradores, para a direcção do lar de idosos, para levar o freguês doente à consulta e para apanhar a ovelha tresmalhada, para tapar o buraco no asfalto e manter as ruas limpas – tudo esticando um orçamento irrisório em que dois tostões têm de render e render e render até virem mais dois tostões.
E, contudo, por entre a algazarra mediática de okupas, klimáticos e akampas, a sua voz é raramente ouvida.
Indignam-se agora os presidentes de Junta, e muito justamente, porque o Orçamento do Estado quer mais uma vez roer-lhes a corda. E à sua frente (não vá julgar-se que o protesto tem cor partidária) levanta-se o presidente da Anafre, Francisco Brito, autarca do PSD, insuspeito de animosidade perante o Governo do seu partido.
Se as grandes freguesias se debatem com problemas de escala, impotentes perante a dimensão da empreitada, são as pequenas que mais sofrem as misérias do dia a dia, dispondo de meia dúzia de milhares de euros mensais para manter a casa a funcionar, fazer obra e pagar ao pessoal. E nem um queixume pessoal se ouve aos seus presidentes, que por uma verdadeira dedicação a tempo inteiro recebem, pela tabela avara do meio tempo, escassas centenas de euros de remuneração.
Há dias, reunidos em Pombal, perderam a timidez e contaram as suas mágoas.
Em Janeiro deste ano, delegados dos partidos com maior representação autárquica (incluindo Pedro Alves, coordenador autárquico nacional do PSD) subscreveram um compromisso programático destinado a minorar a penúria em que vegetam muitas das mais de três mil Juntas de Freguesia. Fiada nesse acordo, a Anafre enviou ao primeiro-ministro, ao ministro das Finanças e ao ministro da Economia uma carta com quatro pedidos com vista à sua satisfação no Orçamento do Estado para 2027: reforço de 1% do Fundo de Financiamento das Freguesias, passagem de pelo menos um membro de cada Junta a tempo inteiro, direito de preferência na aquisição de imóveis (de que as Câmaras já beneficiam) e atualização do financiamento no concelho de Lisboa para acompanhar os aumentos salariais da Administração Pública nas freguesias da capital.
Ao lerem a proposta de Orçamento do Estado, os autarcas concluíram, com surpresa, que o compromisso assinado pelo coordenador autárquico nacional do PSD fora rasgado: na maioria dos casos, as contas das Juntas de Freguesia, em vez de ganharem um aumento, sofrerão cortes na ordem dos 9%. Isto sem contar com a subida do preço dos produtos e dos combustíveis e com os aumentos salariais. “Nenhuma das nossas solicitações foi atendida”, lamenta, desalentado, o social-democrata Francisco Brito.
Segue-se uma ronda de conversações com os partidos parlamentares e mais pedidos de audiência ao Governo, na esperança de que ainda se vá a tempo de fazer justiça no debate do Orçamento na generalidade, agendado para 27 e 28 deste mês. Se não, arriscamo-nos a ter, no dia 4 de Novembro, encerrados em sinal de protesto todos os serviços de todas as Juntas de Freguesia em todo o país.
E razão não lhes falta.

Jorge Morais
Era um protesto contra a cantina desprovida. A sala de aula pouco iluminada. A carteira desengonçada. O horário mal gizado. A falta de auxiliares. Era um liceu dos arredores, um caso menor, um sussurro a sair à rua, uma coisa de nada.
Depois, impercetivelmente, chegavam mais liceus, nem todos dos arredores. Juntavam-se estudantes das universidades. Sindicalistas com sentido de oportunidade. Ativistas com falta de atividade. Desempregados e deslocados. E a rua foi enchendo.
E já não era a carteira, a cantina, o horário. O bruaá queria agora um novo currículo universitário, habitação condigna, gasolina barata, melhor nível de vida, o fim da guerra com o Irão, a demissão do ministro, a queda do governo, a remodelação da Europa, Trump enforcado e Salmon Rushdie em auto de fé.
E já não era um sussurro nos arredores. Era o berreiro na praça central, nas principais cidades, o alarido, a algazarra, o escarcéu, os slogans, os cartazes, os carros voltados, os caixotes de lixo incendiados, as montras pilhadas. E já não era protesto: era a arruaça, o motim, a revolta. Empunhavam-se pistolas. Tacos de baseball em rusgas punitivas. E já não eram estudantes: eram profissionais do tumulto, organizadores de multidões. E a rua ia enchendo. Esfarrapados da vida, caras de arame farpado, bandeiras da palestina e echarpes à Arafat.
E a Europa do Sul toda se levantava num grito pela habitação, pelo ambiente, por Gaza, por Navi Pillay, pela utopia do instante e pela ilusão de sempre. Em França. Em Espanha. Na Bélgica. A rua engrossava e engrossava a voz rouca da multidão.
E já não era só lá longe. Era agora o vagido doméstico no Lycée Français com o papá esperando no Range Rover à porta das Amoreiras. Era a brigada dos 236 militantes do costume em tendas dekathlon. Eram “as causas” dos ativistas desativados. Era a rua. Era o poder da rua dando punhadas nas mesas das redações, reclamando aberturas de telejornal, grandes planos dos flausinos desgrenhados, o fim dos combustíveis fósseis e a aurora dos amanhãs que assobiam. Eram flotilhas em terra. Era o delírio descamisado. Era a rua.
A rua é má conselheira. Sabemos por experiência. A rua endeusou Dom Carlos e Afonso Costa, à vez. A rua fez e desfez Gomes da Costa. A rua encheu para aclamar Salazar, para vitoriar Marcello e para ovacionar Spínola. A geringonça e o Chega. Marco Rubio e Barak Obama. Franco e Sánchez. A rua faz os regimes e condena-os. A rua não pensa: ulula. Não exprime: vocifera. A rua é as redes sociais em três dimensões. A rua é o eco animal da irracionalidade. É a escarlatina do instinto. É o medo de pensar. A cobardia coletiva.
Se de todo este alarido resultar uma única carteira consertada num liceu dos arredores, ficarei surpreendido

Jorge Morais
Manifestam-se aflitas a Confederação dos Agricultores de Portugal, a Confederação Nacional das Cooperativas Agrícolas e a Confederação Nacional da Agricultura perante “a gravidade da situação do sector agroalimentar”. Tomam as suas dores os políticos, avisando que“o sector agrícola e agropecuário nacional atravessa um dos momentos mais críticos da sua história recente”. Não é uma surpresa esta situação de crise: a tempestade está anunciada desde há sete décadas e só é de admirar que os relâmpagos e trovões não tenham rebentado mais cedo.
Falo de uma atividade económica que emprega hoje uma força residual de 200 mil pessoas e tem um peso direto de apenas 2% do Produto Interno Bruto do país – mas que, observada no conjunto das indústrias agroalimentares, movimenta mais de 25 mil milhões de euros anualmente e assegura, só por si, 14% do total das exportações de bens de Portugal. Não se trata, portanto, da velha penúria do homem da charrua puxada a bois, mas da desorganização de um sistema produtivo que, mal ou bem, nos põe na mesa 80% do que comemos e bebemos.
A crise de rentabilidade estrutural e conjuntural em que o sector agropecuário mergulhou tem causas conhecidas. Uma das mais óbvias é a fortíssima competitividade externa, que se sente sobretudo em produtos críticos como os cereais.Neste e em muitos mais enfrentamos a pujança da produção espanhola, beneficiária de apoios oficiais que trazem os seus alimentos à fronteira a preços imbatíveis.
Outra causa relevante é a escalada nos custos dos fatores de produção: a subida contínua dos preços dos combustíveis e da eletricidade sufoca as margens de exploração, situação ainda agravada pelo encarecimento abrupto e a incerteza no fornecimento de adubos, fertilizantes e raçõespara a alimentação animal, tudo pondo em desequilíbrio a já parca estabilidade financeira de milhares de explorações pecuárias e agrícolas.
Associada à extrema vulnerabilidade climática e hídrica, com ciclos de seca e intempéries extremasque provocam avultados prejuízos materiais diretos nas infraestruturas e nas colheitas, o envelhecimento da mão-de-obra e a desertificação rural impedem a renovação geracional, com reflexos imediatos na transição tecnológica e nastarefas sazonais que marcam a vida nos campos.
Junte-se a isto a burocratização da vida rural, a imposição por Bruxelas de regras absurdas no uso de substâncias ativas e pesticidas tradicionais e o atraso crónico na atribuição de apoiosinstitucionais – e temos aquilo a que podemos chamar, sem receio de exagero, a “tempestade perfeita”.
Esta tempestade estava prevista desde os anos 60 do século passado. Ou mesmo antes. Escrevendona extinta Gazeta das Aldeias, Mário de Azevedo Gomes alertava em Janeiro de 1958 para a necessidade de alterar radicalmente a política agrícola para estancar o “êxodo rural” e evitar o definhamento da produção face à conjuntura em metamorfose. Essa alteração não surgiu então, e nos anos 60, 70 e 80 fomos empurrando os problemas com a barriga enquanto assistíamos alegremente à desertificação do Interior e ao envelhecimento da lavoura. Só à aproximação do fim do século despertámos do sono profundo, mas o mal estava feito: a modernização tecnológica surgiu, sim, mas a evolução conjuntural já nos levava décadas de avanço.
Falta-nos uma política de visão que reponha a agropecuária na linha da frente da economia. Mas as políticas de visão requerem homens de visão. E aí é que a porca torce o rabo
Falta-nos agora, no meio da tempestade, uma política de visão que reponha a agropecuária na linha da frente da economia. Mas as políticas de visão requerem homens de visão. E aí é que a porca torce o rabo.

Jorge Morais
Chorava eu aqui, na semana passada, o estado a que chegou o parlamento português – algazarra insuportável de burgessos sem educação e sem gramática que se especializaram em bojardas grosseiras e despiques de mão na anca. A “bandalheira”, para usar a palavra de Aguiar Branco.
De entre muitos leitores que se reviram no meu reparo, alguns surgiram tomando-o por exagero. Pois bem: nem foram precisos três dias para, mais uma vez, os senhores deputados se envolverem em cenas tristes, acusando-se mutuamente de (e cito) roubo, hipocrisia, traição, inutilidade e aldrabice, fazendo a Assembleia da República descer ao nível da altercação de taberna. Já não é um ou outro caso raro: a ordinarice contagiou a generalidade das bancadas, da governamental às outras – e o presidente da mesa está reduzido ao papel de gestor de tumultos.
Dir-me-ão que assim acontece em toda a parte. Não é verdade. Já assisti a debates num bom número de parlamentos europeus e nunca vi um despropósito como o português. Um excesso ocasional é inevitável; mas para o limitar existem regras dissuasoras da má educação, escritas ou não – como a norma inglesa de cada orador se dirigir ao Speaker, e não ao adversário, referindo-se a este na terceira pessoa do singular. Evita-se assim o confronto de galos. E isto não retira vivacidade aos debates: sabemos bem como eles podem ser acalorados na Casa dos Comuns, e até na Câmara dos Lordes. O que não há é baixaria, e quando ela surge é prontamente punida com suspensão de mandato, como eu já vi acontecer.
Há em Portugal algo muito mais grave do que a mera algazarra: na origem do abaixamento do nível da vida política está o abaixamento do nível dos
políticos, salvaguardadas as raras excepções. Num exercício acrónico, poucos dos atuais teriam competência para moço de recados dos grandes homens públicos de algumas décadas atrás. Por isso, a bem dizer, não pode surpreender-nos que a extracção desta temporada dê no que dá.
A ajudar à festa, o ruído comunicacional fez da baixaria política uma telenovela. E quando digo ruído comunicacional não me refiro apenas às chamadas “redes sociais”, esse bairro de barracas onde imperam cocó, ranheta e facada. Refiro-me também, e com termo de responsabilidade acrescida, à informação regulada, aos jornais, às rádios e sobretudo às televisões.
Com a proletarização dos jornalistas e a concentração empresarial, muitos destes Media tornaram-se meras fábricas de entretenimento que a todo o instante precisam de novos palhaços e novas palhaçadas. O pobre repórter de hoje, por melhores intenções que possa acalentar, é frequentemente obrigado a fazer o papel da calhandreira intriguista: mal soa uma bojarda, logo é mandado a atiçar a réplica. Assim se alimenta o circo no velho mosteiro de São Bento, outrora uma casa séria.
Mas já basta deste tema, desagradável em extremo para quem tem a política noutro conceito. Prometo não voltar a ele.

Jorge Morais
Quem conhece um pouco da história portuguesa da viragem do século XIX para o século XX não pode deixar de encontrar curiosas semelhanças entre a barafunda política de então e a trapalhada política dos nossos dias.
No último período da Monarquia Constitucional e na primeira década da República, em especial, o parlamento foi palco de uma tragicomédia que em 1926 acabou por desembocar em ditadura militar. Tudo ali se disse e fez de mais feio, incluindo execrações terminais, intervenções da Guarda e exercícios livres de pugilato. A violência verbal tornou-se norma – e acusações mútuas de desonestidades, roubos e crimes sem nome pontuaram o dia-a-dia da Câmara dos Senhores Deputados.
Data desse período negro a consagração de expressões como “pinhal de Azambuja”, que os parlamentares atiravam uns aos outros quando queriam acusar-se de ladroagem. “O Governo de Vossa Excelência é verdadeiramente um pinhal de Azambuja” – increparia um deputado, usando punhos de renda para dourar a bojarda. A alusão vinha de longe: nos séculos XVIII e XIX, a viagem entre Lisboa e o Norte do país passava obrigatoriamente pela densa mata da Azambuja, que era então esconderijo perfeito para salteadores e bandidos de estrada que ali emboscavam as incautas diligências. Garrett e Eça gravaram a expressão e os senhores deputados gastaram-na a torto e a direito.
Outra expressão também muito usada era “a casa da Joana”, com raízes no século XIV e referência a Joana I, Rainha de Nápoles e Condessa da Provença. Sempre que o despique descambava ou a bagunça se instalava, logo alguém atirava: “Deve Vossa Excelência pensar que isto é o da Joana, mas muito se engana!”. Ora a verdade é que, provavelmente, não se enganava mesmo.
Lembrei-me desta marabunta quando há dias ouvi o presidente da Assembleia da República admoestar um deputado com sucedâneos do pinhal e da Joana: “Senhor deputado, isto não é uma bandalheira!”. Ora a verdade é que, provavelmente, é mesmo.
O hemiciclo é hoje uma macacada insuportável. E as inúmeras comissões de inquérito e sindicâncias tornaram-se ringues de boxe
A vozearia que atualmente domina a vida política, desagradável a todos os títulos, transformou em algazarra de mão na anca o que devia ser troca de ideias. Os políticos vivem de responder uns aos outros e ocupam-se, não de legislar ou governar, mas de acusar-se mutuamente. Em vez de factos substantivos, servem-se de adjetivos – e quando mais ofensivos, melhor. Todos os dias chamam mentiroso e irresponsável ao adversário. Arvoram-se juízes em causa própria, cobrindo-se de autoelogios, e condenam ou absolvem em redor como se lhes coubesse a sentença final. O hemiciclo é hoje uma macacada insuportável. E as inúmeras comissões de inquérito e sindicâncias tornaram-se ringues de boxe em que os inquiridores não poupam golpes baixos antes mesmo de soar o primeiro gongue.
Dedos acusadores em riste, esgares façanhudos, impropérios aos berros, gente feia e de cara mal lavada são hoje a imagem da “casa da democracia”. Ou da Joana, mais propriamente.

Jorge Morais
Simpatizo com a causa dos javalis, confesso.
Numa destas noites atravessaram-se-me dois de grande porte, na estrada de Nisa, altas horas, com a filharada em fila indiana, à cata de ceia ou de um covil mais jeitoso. Usei o travão com suavidade para lhes dar passagem sem sobressaltar a respeitável família – cuidado que costumo ter com as raposas vermelhas que também vêm, essas solitárias e esquivas, espreitar o asfalto por uma questão de curiosidade.
É aqui que estes bichos pertencem, aqui onde encontram a sua bolota predilecta, a castanha, o fruto silvestre. A javali sorrateira gosta de dar ao seu leite materno um travo do milho de grão leitoso ou até de uva, que nesta época do ano está doce e farta, e às vezes aventura-se por onde não devia. Entendo bem a fúria do lavrador que vê o seu milharal desfeito pela incursão desrespeitosa; mas se contido no seu habitat, o javali vive do que árvores e silvados dão, mais das larvas e dos bolbos que vai escavar com o focinho.
Por que razão deparamos, então, com ele em Galamares e nas Azenhas do Mar, aventurando-se por Santo Estêvão de Viseu e atravessando descaradamente a Avenida Luísa Todi, em Setúbal, no seu passinho de ladrão noturno, tic-toc-tic-toc, para ir esgaravatar nos caixotes de lixo do mercado do Livramento?
Parece-me óbvio: a bicharada desce à cidade porque o homem foi ao campo tirar-lhe o sustento. A cimentação e a asfaltagem do território, a construção galopante e a invasão dos humanos roubaram ao javali da periferia das grandes cidades o habitat que era seu há séculos, em alguns casos há milénios. Com a agricultura inutilizada e os campos cobertos de prédios, onde pode o javali encontrar a subsistência – a não ser nas lixeiras deste admirável mundo novo?
Chamem-me lorpa, mas simpatizo com a causa dos javalis. Enxotados de casa e privados do ganha-pão, andam à noite a fazer pela vida e pela subsistência dos bacorinhos revolvendo os caixotes de lixo da cidade invasora
Nas regiões onde a agropecuária continua florescente, não precisam os bácoros de ir à urbe: lá continuam nos campos, vivendo do que a terra dá, cobrindo o território na complexidade das suas delimitações etológicas; se põem o focinho de fora é para atravessar a estrada, de um campo para outro, a trote apressado, cientes de que estão a pisar território alheio; e os picos de reprodução, todo o caçador o sabe, são controlados pelo levantamento venatório e pelas montarias que mantêm o equilíbrio das espécies no montado.
Chamem-me lorpa, mas simpatizo com a causa dos javalis. Enxotados de casa e privados do ganha-pão, andam à noite a fazer pela vida e pela subsistência dos bacorinhos revolvendo os caixotes de lixo da cidade invasora.
Como resolver o problema? A tiros de caçadeira? Não creio. É que o problema não está nos bichos que descem à cidade: está na desordem com que nós, os humanos, asfaltamos toda a vida à nossa volta.

Jorge Morais
Nunca deixarei de me surpreender com os truques congeminados pelos meus estimados concidadãos para trabalharem ainda um bocadinho menos.
Acabo agora de encontrar na caixa do e-correio mais uma manifestação desse engenho inventivo: sob o eufemístico título “Maximizar os Dias de Descanso”, o meu amável correspondente fornece-me uma lista completa de “feriados, pontes e fins-de-semana prolongados para aproveitar no próximo ano” – um rol deleitoso de “várias oportunidades para criar” dias extra de sorna.
A antecedência cautelar de quatro meses com que esta cábula é fornecida dar-me-á tempo para esgaravatar todos os recantos obscuros do calendário e acrescentar à lista dourada algum feriado municipal ou marco confessional que porventura lhe tenha escapado. A antecipação é justificada com uma imbatível lógica laboral: “As férias de 2026 terminaram para muitos e, por isso, nada melhor do que começar já a pensar nas próximas…”. Tomei devida nota das reticências.
E as alegrias surgem no primeiro dia de 2027: “como calha a uma sexta-feira”, indica o meu generoso correspondente, “começa logo o ano com um fim-de-semana prolongado”. Boa. E a seguir vem a terça-feira de Carnaval e o sábio conselho: “se tirar a segunda (dia 8) de férias, fica com um fim-de-semana de quatro dias”. O mesmo em 26 de Março, Sexta-Feira Santa. E melhor ainda em 27 de Maio, dia do Corpo de Deus, que “é uma quinta” (tal como 10 de Junho, Dia de Portugal), bastando “tirar a sexta” para ganhar umas mini-férias. O maravilhoso método de “fazer ponte” aplica-se também a 5 de Outubro, terça-feira, dia da instauração da República. Menos trabalhoso ainda é o dia de Todos os Santos, 1 de Novembro, que cai numa segunda-feira, pelo que (explica o meu prevenido correspondente), “sem fazer nada, já tem mais um fim de semana prolongado” no papo. Mas o melhor, mesmo, está nos feriados que “calham a uma quarta-feira”, como o dia da Restauração (1 de Dezembro) e o da Imaculada Conceição (8 de Dezembro): basta sacrificar dois dias de férias na segunda e na terça para conquistar uma escapadinha de quase uma semana. Uau.
Infelizmente, lamenta o meu inconsolável correspondente, “ao olhar para estas datas há quatro feriados que não constam na lista”: são os ingratos 25 de Abril, 1.º de Maio, 15 de Agosto e o dia de Natal, que caem ingloriamente em fins-de-semana. Não há direito.
Agradeço ao meu esforçado correspondente a trabalheira que teve a explicar-me como trabalhar menos. Rapaz, só por isso já merecias mais um dia de papo para o ar.
Acabo também de encontrar na caixa do e-correio a circular do Eurostat com os valores nominais do PIB per capita na União Europeia. Média geral: 41.600 euros anuais. Espanha, 34.210. França, 43.350. Alemanha, 53.520. Portugal: 28.390 euros.
Uns desmancha-prazeres, estes europeus.

Jorge Morais
Tem-se discutido, com algum calor e muita ingenuidade, a proibição dos chamados ‘smartphones’ nas escolas. O bruaá voltou na última semana, com a promulgação presidencial que alarga as restrições até ao 9º ano de escolaridade.
Por uma razão meramente metodológica, li com paciência os argumentos de quem defende a “liberdade na sala de aula” a bem da “cidadania digital”. Mas nem um só me convenceu: antes de tudo, a escola não é um parlamento; depois, a preocupação com a “cidadania digital” transformou-se num bonito embrulho para o consumismo em que a indústria dos ‘gadgets’ nos vem escravizando.
O debate chegou a Portugal há três ou quatro semestres mas tem barbas na União Europeia, que vem há anos questionando a relação dos jovens com as tecnologias digitais. Universidades, ‘thinktanks’ e instituições da especialidade têm analisado o problema ao microscópio, sopesando e submetendo ao fogo do contraditório todas as alegações – mesmo aquelas que usam a palavra “proibição” como anátema grosso e primário.
Está hoje pacificamente estabelecido que os ‘smartphones’, longe de serem as inocentes “ferramentas de apoio pedagógico” que a indústria propagandeia, são simples fonte de distração profunda, ansiedade e isolamento social. A UNESCO, após uma década de investigação, apela a uma “pausa digital” perante o impacto negativo no desempenho escolar e no bem-estar emocional dos estudantes.
Inúmeros países europeus adotaram regras draconianas: a França, que em 2018 foi pioneira ao banir telemóveis no ensino básico, estendeu recentemente a proibição total aos alunos do ensino secundário; nos Países Baixos, o veto a ‘smartphones’, ‘tablets’ e relógios “inteligentes”entrou em vigor de forma abrangente para escolas primárias e secundárias; as escolas italianas e húngaras exigem a recolha dos aparelhos à entrada do recinto escolar; na Alemanha, onde não há leis federais sobre a matéria, vários Estados e muitas escolas seguem as recomendações da UNESCO; a Polónia e a República Checa anunciaram também restrições rigorosas; e aqui mesmo ao lado da União Europeia, a livre Inglaterra avançou com regulamentação proibindo o uso de telemóveis em todas as escolas durante todo o dia letivo (não apenas no tempo de aulas, mas também nos intervalos e períodos de almoço).
Mais do que uma rejeição da “modernidade”, a interdição de ‘smartphones’ na União Europeia filia-se numa política de saúde pública e de salvaguarda da sanidade educacional
Parece que chamar a isto “proibição” desperta velhos papões. Mas os resultados falam por si: maior concentração mental nas aulas, socialização natural durante os intervalos, ambientes escolares mais calmos, maior atividade física: o regresso a padrões humanos. Mais do que uma rejeição da “modernidade”, a interdição de ‘smartphones’ na União Europeia filia-se numa política de saúde pública e de salvaguarda da sanidade educacional.
Nem percebo que, em Portugal, seja necessário um “período de adaptação” até Janeiro de 2027 para – diz o diploma – “preparar alunos, professores e famílias para a aplicação integral das novas regras”. Adaptação a quê? Grande número de escolas já tinha adotado voluntariamente a interdição de ‘smartphones’ até ao 3º ciclo sem precisar de “preparação” especial. Bastou carregar no botão e desligar a maldita coisa.