
Pedro Frazão
Em Portugal, a lei é duríssima para quem não tem poder e surpreendentemente flexível para quem manda nisto tudo.
O leitor cidadão falha uma declaração, atrasa um pagamento, uma licença ou comete um erro administrativo e recebe imediatamente uma notificação, uma coima ou uma ameaça de cobrança coerciva. Já quem ocupa os lugares mais altos encontra sempre uma explicação conveniente: não sabia, não foi avisado, confiou nos serviços, quis poupar dinheiro ao Estado ou apenas seguiu uma recomendação amiga!
É assim que funciona a nossa República dos Xerifes.
Os xerifes exigem transparência aos outros, mas esquecem-se das próprias declarações de rendimentos e património. Impõem limites aos pagamentos em numerário, mas descobrem formas criativas de os repartir. Apreendem bens aos cidadãos em nome da lei, mas depois tratam-nos como se fossem propriedade disponível para entregar a conhecidos.
Quando são confrontados, não apresentam documentos nem aceitam muitas perguntas. Falam alto. Invocam os cargos. E transformam possíveis ilegalidades em pequenas “irregularidades” ou, imagine, em extraordinários actos de “boa gestão”.
O mais grave é o sistema permitir tudo isto.
As instituições protegem-se umas às outras, os responsáveis empurram a culpa para funcionários subalternos e os governantes esperam que o tempo desgaste a sua indignação. A responsabilidade sobe nos discurso e desca na hora das consequências.
Criou-se uma elite administrativa e uma casta política convencida de que a lei existe para disciplinar o povo, não para limitar o poder. Uma casta que confunde autoridade com impunidade e o serviço público com o domínio privado.
Depois perguntam por que razão os portugueses perderam a confiança nas instituições? Perderam porque vêem dois países. Um para os que trabalhamos, pagamos e obedecemos, e outro para quem manda, erra e só se desculpa.
Na República podre dos Xerifes, todos falam em transparência. Só não deixam é que se façam muitas perguntas.
A democracia começa cheirar a podre quando os seus dirigentes deixam de sentir vergonha e passam a considerar normal, fazerem aquilo que nunca aceitariam num cidadão comum!
Na República podre dos Xerifes, todos falam em transparência. Só não deixam é que se façam muitas perguntas.

Pedro Frazão
Vivemos tempos em que discutir as ideias deixou de ser o mais interessante. Em vez de responderem aos argumentos até jornalistas preferem colar rótulos a quem ousar pensar de forma diferente.
Se questiona qualquer narrativa dominante, é “negacionista”. Quando critica a imigração descontrolada, é “xenófobo”. Se defende valores conservadores, é “extremista”. E, até, se se desafia um consenso falso, passamos a ser “populistas, radicais”. Os nomes mudam muito mas esta a estratégia é sempre igual: querem descredibilizar quem discorda para menorizar os seus argumentos no debate.
Curiosamente, são quase sempre as mesmas vozes, os mesmos comentadores, jornalistas, os mesmos activistas e muitos dos mesmos meios de comunicação social que distribuem estas etiquetas vãs. Falam constantemente em democracia e liberdade de expressão, mas revelam uma enorme dificuldade em aceitar as opiniões que são diferentes das suas.
Uma democracia saudável não vive de um pensamento único. Vive do confronto de ideias, do contraditório e da nossa liberdade para questionar. Quem acreditar que uma opinião contrária deve ser silenciada está a enfraquecer a própria democracia que supostamente diz defender.
Os rótulos são sempre o último refúgio dos que já não conseguem vencer um debate… mas querem tentar calar quem pensa diferente.
Discordar não pode ser sinónimo de negar factos. Questionar não pode ser um crime senão o verdadeiro perigo é passarnos a ter uma sociedade que deixa de responder com argumentos e passa a responder com ótimos insultuosos e com censura.
Os rótulos são sempre o último refúgio dos que já não conseguem vencer um debate… mas querem tentar calar quem pensa diferente.
Os portugueses devem perguntar-se quem são os verdadeiros negaciontas e intolerantes. Aqueles que colocam questões e defendem posições diferentes ou aqueles que pretendem decidir quais as únicas opiniões permitidas e quais devem ser banidas da praça pública?

Pedro Frazão
Fui condenado por uma publicação de 2021. Discordo profundamente da sentença e recorrerei aos meios legais ao meu dispor para a contestar.
Tudo começou com o testemunho público de uma jovem ligada ao Bloco de Esquerda, que denunciou assédio sexual e perseguição por um homem de 62 anos do partido. Partilhei o vídeo e perguntei: “Já não há Pureza no Bloco de Asquereza?” e “Quem será o nojento de 62 anos?”
Não acusei José Manuel Pureza nem afirmei conhecer o homem denunciado. Fiz perguntas. Curiosamente, o Bloco só anunciou que começara a tratar da queixa depois de eu expor o caso. O sistema encontrou rapidamente o verdadeiro perigo: não o alegado assédio, mas o meu post.
A acusação diz que eu sabia que Pureza tinha 62 anos. Como? Em 2021 nem sequer era deputado. Pergunto ao leitor do 24Horas: sabe a idade dos actuais vice-presidentes da Assembleia da República? Provavelmente nem sabe quem são todos. O próprio Pureza, em tribunal, não conseguiu indicar a idade de nenhum. Mas eu, pelos vistos, teria uma base de dados secreta com os aniversários dos bloquistas!
A advogada de Pureza é Carmo Afonso, comentadora da RTP e defensora pública da extinção do CHEGA, partido de que sou vice-presidente. Certamente mais uma coincidência “pura” deste processo. Para mim, estamos perante perseguição política e judicialização do combate partidário por parte do líder de um partido que perdeu representação e nem o conseguiu eleger deputado.
Pureza alegou ataques de pânico, consulta e medicação. Porém, apurou-se que o médico indicado já estaria reformado, a ACSS respondeu que não trabalhava naquele centro de saúde e não foi encontrada a suposta receita no sistema. O médico era, contudo, militante do Bloco e subscritor da moção de Pureza. Eça de Queiroz dificilmente faria melhor: o médico reformado, a receita desaparecida, a comentadora transformada em advogada e o político condenado por uma pergunta.
O Tribunal Europeu dos Direitos Humanos tem repetidamente censurado Portugal e afirmado que a liberdade de expressão protege palavras que chocam, ofendem ou perturbam, sobretudo no debate sobre figuras públicas. Os limites da crítica admissível são mais largos relativamente aos políticos. O próprio Tribunal Constitucional reconheceu que, no debate político, certas expressões susceptíveis de atingir a honra podem tornar-se juridicamente irrelevantes perante o peso da liberdade de expressão.
Quando um ponto de interrogação acaba condenado no banco dos réus, não será já a própria liberdade de expressão que precisa de um bom advogado?
No meio disto, ninguém voltou a perguntar pela jovem ou pelo homem de 62 anos que ela denunciou. Para o sistema, o problema não é o alegado assédio, nem as histórias que envolveram o CES de Coimbra. O problema foi alguém perguntar se ainda havia Pureza, com P maiúsculo, no Bloco.
Caro leitor do 24Horas: quando um ponto de interrogação acaba condenado no banco dos réus, não será já a própria liberdade de expressão que precisa de um bom advogado?