A quase coincidência, este ano, entre o início da Quaresma cristã e o Ramadão islâmico expôs um contraste simbólico que...
A quase coincidência, este ano, entre o início da Quaresma cristã e o Ramadão islâmico expôs um contraste simbólico que muitos europeus já vinham pressentindo: enquanto o mês sagrado muçulmano foi amplamente assinalado nas grandes cidades europeias ocidentais por muitas instituições públicas, meios de comunicação e responsáveis políticos, entre nós a entrada no tempo quaresmal passou quase despercebida no espaço público.
Não se trata de negar a liberdade religiosa nem o legítimo reconhecimento da diversidade, mas de interrogar o significado cultural desta assimetria.
Em várias cidades europeias multiplicam-se mesquitas, celebrações públicas do Ramadão e sinais visíveis de uma presença islâmica crescente. Mas paralelamente observa-se uma descristianização acelerada: prática religiosa residual, igrejas encerradas ou desconsagradas, com muitas transformadas sem uso benemérito, acabando algumas em teatros, bares ou discotecas, perda de referências simbólicas, de rituais públicos cristãos, outrora estruturantes das comunidades.
Este duplo movimento alimenta a perceção, em amplos segmentos da população, de erosão identitária e de enfraquecimento do sentido de comunidade histórica.
A par disso, os discursos oficiais insistem num horizonte de crise permanente: catástrofes climáticas, inverno demográfico, dependência energética, fragilidade estratégica perante novos blocos geopolíticos.
A migração em larga escala, proveniente maioritariamente de regiões periféricas não cristãs, acrescenta complexidade a sociedades já culturalmente fragmentadas.
Muitos cidadãos sentem que os poderes públicos revelam indiferença — ou incapacidade — na preservação da herança civilizacional europeia, o que é frequentemente interpretado como incompetência ou simples cedência estratégica.
Estaremos na antecâmara de um colapso civilizacional?
A história aconselha prudência. A Europa cristã sobreviveu a guerras religiosas, invasões, revoluções e totalitarismos. A questão decisiva não é a da diversidade em si, mas a capacidade de afirmar uma identidade cultural coesa e efectivamente maioritária, confiante e aberta. Viva!
Se houver vontade política e renovação cultural, talvez este momento seja menos um epílogo, e mais um ponto de inflexão.
Ainda está nas nossas mãos!