De manhã, na aldeia, o pão ainda chega morno e a conversa vem fria, como se a noite a tivesse...
De manhã, na aldeia, o pão ainda chega morno e a conversa vem fria, como se a noite a tivesse guardado no bolso. Encostamo-nos ao balcão do Manel, medimos o café pelo rumor, e alguém diz que os estrangeiros continuam a arranjar o palacete do Rossio –estrangeiros de onde, pergunta-se, como se a geografia fosse uma forma de parentesco. A casa, que dantes respirava abandono com dignidade de senhora antiga, está agora coberta por um véu de andaimes e promessas. Até aqui, nada de novo. Mas ontem, ao dobrar a esquina, vi o que não estava previsto – e o dia ficou com um dente a mais.
Levantam piso. Acrescentam altura. Um torreão cresce no quintal como um pensamento que não nos pertence. E eu, cá de baixo, com a prudência de quem já perdeu uma carteira e encontrou apenas recibos, senti um susto manso: isto é maior do que devia. Talvez maior do que nós. Ou do que a memória que fingimos ter.
“É progresso”, diz um homem do boné, com a autoridade de quem nunca sobe escadas.
(Nota ao leitor: progresso é palavra elástica; serve para embrulhar tanto um pão como uma catedral.)
Há em todas as terras um gosto pelo excesso miudinho, uma febre de purpurinas que se cola às coisas sérias como musgo a pedra antiga. Não se vê, mas pesa. E paga-se. A burocracia assina, os jornais piscam o olho, a política ajeita a gravata. Nós, que somos poucos e muitos ao mesmo tempo, olhamos e comentamos, com essa arte de murmurar que é uma forma de concordar.
“Construímos o que nos falta para não vermos o que nos sobra.”
Disse-o ninguém, ou talvez eu, numa dessas conversas interiores que começam com o frio e acabam na consciência. Porque há qualquer coisa de profundamente íntimo neste torreão novo: ele cresce como crescem as desculpas, por camadas, e de cada janela futura espreitará uma vista que não existia – e, por isso mesmo, parecerá necessária.
Volto hoje ao Rossio. A casa antiga, coitada, continua lá, a suportar o acrescento como quem aceita um chapéu que não pediu. Julgava-me imune a alturas – mas dou por mim a medir o céu em prestações. No fim, talvez seja isto: a aldeia não cresceu; apenas se esticou um pouco, para caber melhor no retrato que alguém imaginou. E nós, com o café já morno, continuamos a caber nela.