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  • “O Mundo não espera por nós”, António José Seguro
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João Vasco Almeida

Uma pessoa anda aí pelas ruas e chega a ouvir catraias nascidas em 1990 a dizer mal de Mário Soares....

Uma pessoa anda aí pelas ruas e chega a ouvir catraias nascidas em 1990 a dizer mal de Mário Soares. A que se somam as associações de retornados, os famélicos da Terra, alguma Santa Madre Igreja e espontâneos a quem nada se perguntou, mas que fazem do táxi sua tribuna.

Porém, atente nisto: nunca dizem mal de Mário Soares da forma certa. Atacam o enorme Soares por três coisas: «Estava vendido aos americanos»; «Ele encheu-se foi do bom, do nosso dinheiro» e, ainda, «Ele traiu os amigos todos e ficámos na miséria».
Uma pessoa ouve e não está para contestar, tal a pobreza. Mas decido ajudar. Querem dizer mal de Soares? Então, pela minha saúde mental, usem-se disto a seguir:

1- «Estava vendido aos americanos Ainda bem. Imaginem que estava vendido a Moscovo ou a Nairobi. Era pior, ou não? É uma cantilena sem sentido.
2 – Soares não precisava de dinheiro para nada. Já o tinha. Podia ser advogado da Coca-Cola toda a vida…
3 – As grandes zangas de Soares são públicas. Zenha, a que mais lhe doeu, teve arrependimento póstumo.

Mas, para dizer mesmo mal, tome nota:

1- A urgência da descolonização baseou-se na insustentabilidade militar e financeira de manter três frentes de guerra. Deu numa descolonização em que Moçambique, Angola e Guiné assinaram em papel molhado. Guerras civis que ainda hoje afloram. Mas Portugal estava de rastos financeiros (o Botas deve ter levado o ouro nazi para Santa Comba).

2 – Não há graça que não faça o FMI: por duas vezes, uma no pós-guerra colonial e outra depois do PPD a governar, Soares teve de pedir empréstimos ao Fundo. Ou isso, ou íamos mesmo ao fundo.

3 – Esta decorre da (2): A “política do rigor” foi um imperativo de saneamento financeiro; sem o ajuste das contas públicas, Portugal não teria atingido os critérios mínimos de convergência necessários para integrar o projeto europeu. Soares impõe CEE, mesmo contra um vacilante Cavaco e uma revolta dos agricultores. Sabia que, para sair do abismo, tínhamos de dar um passo atrás — para a terra,não para o mar.

Por isso, caro leitor/a, estimo que, para a próxima, já vá preparado. Ou fale do Benfica.

(Nota: Leia “O Tempo e a Memória”, crónicas de Mário Sores, com escolha e organização de Jorge Morais, Âncora, 2026. Vai a ver-se e, afinal…)